Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

O Velho Zacarias - Capítulo III - A Escola - Parte 3

 

E, assim, lá fomos os dois a caminho da escola, com uma paragem no boteco para comprar os pirulitos. O meu primeiro dinheiro e o meu primeiro pirulito. Os únicos doces que eu alguma vez tinha comido tinham sido a rapadura que se fazia lá na roça.
Ao chegarmos ao boteco, lá estava o velho sentado na porta, como sempre. Sorrindo para mim e para o João disse:
 
- Bom dia sinhozinhos. Já vão para a escola? Que bom. Tenham muita atenção para aprender, para não virarem burros velhos que nem eu.
 
Eu e o meu irmão sorrimos para o velho, comprámoHs os pirulito e fomos para a escola.
Pelo caminho João tomou a palavra e disse:
 
- Não sei porque é que todos têm medo do velho Zacarias. Dizem mal dele, Xingam ele. Eu acho que ele é muito simpático. Eu não tenho medo dele. A mãe diz que devemos respeitar as pessoas mais velhas e que não devemos dizer mal delas.
 
Olhei para o João e sorri. Concordava plenamente com ele e, além disso, também já tinha nutrido por aquele pobre velho alguma simpatia.
Chegámos à escola e João me mostrou onde era a minha sala.
A professora chegou e me indicou a cadeira onde eu me deveria sentar. Depois me apresentou ao resto da turma contando a todos que eu tinha vindo da roça, que ainda não sabia ler nem escrever e que contava com a ajuda de todos para me ajudarem.
O primeiro dia foi muito bom até à hora da merenda. Todos foram simpáticos comigo e eu estive sempre muito atento à lição, embora tivesse muita dificuldade para compreender o que a professora ensinava. A única matéria que eu tinha alguma facilidade era na matemática. Dominava muito bem os números e até consegui fazer alguns exercícios simples, para o espanto da professora.
Os problemas chegaram com a hora da merenda. Enquanto estava na fila da merenda um dos rapazes da minha turma começou a apontar e a fazer pouco de mim:
 
- Olha o caipirinha burro que veio lá da roça e que com dez anos ainda não sabe ler nem escrever.
 
Tentei ignorar as suas provocações, lembrando-me da indicação da minha mãe para o comportamento. Mas não consegui ignorar por muito tempo. Quanto ele mais provocava mais o sangue das veias me fervia e não me segurei. Saí da fila e me dirigi ao provocador agarrando-o pelo pescoço. Ao verem que eu levava vantagem sobre o opositor vieram mais três para defender o colega que me tinha provocado. Em desvantagem, tentava me defender dos golpes que agora me eram dirigidos.
E, no meio de toda esta confusão, houve alguém que veio em meu socorro. Era o meu irmão João que, perante a minha inferioridade numérica, tomou parte da briga ao meu lado.
Não demorou muito tempo para aparecer um adulto para resfriar os ânimos. E, no final do dia, lá ia nos nossos bolsos um papel a pedir a comparecia da nossa mãe na escola.
No caminho de casa João ia cabisbaixo:
 
- Tamos ferrados. A mãe quando souber vai nos castigar.
 
Mas eu não baixava a cabeça. Tinha brigado sim, mas não admitia que fizessem pouco de mim. Além disso, foi remédio santo. A minha vigorosa explosão tinha servido de aviso e, a partir dali nunca mais ninguém me provocou.
Ao chegarmos a casa entregamos o papel à nossa mãe que, após lê-lo, olhou para nós e disse:
 
- Bonito, muito bonito. Antes de sair de casa foi este o conselho que vos dei? Posso saber o que se passou?
 
Eu, como de costume, fiquei calado. João deu um passo à frente e contou toda a história. No final da história a nossa mãe tomou a palavra e disse:
 
- Bem, Lucas, nós devemos nos defender das provocações e não devemos deixar que os outros nos tratem mal. Mas, não é a brigar que se resolvem os problemas. Violência só trás mais violência. E quanto a você João – Disse virando-se para ele – Agiu bem ao decidir ajudar o seu irmão, mas não devia ser brigando, devia ser a tirá-lo da briga. Como castigo para os brigões acabou-se a televisão e a brincadeira na rua até eu me esquecer do que se passou.
 
A principio não fiquei muito chateado com o castigo pois não estava habituado à televisão e não ia sentir muito a falta dela. Quanto ao não poder brincar na rua também não me incomodou muito. O que eu não sabia era que atrás daquele castigo o tempo que tínhamos para ver televisão e brincar na rua iria ser substituído por mais tarefas escolares. O verdadeiro castigo era estudar o dobro. João ainda tentou argumentar, mas não havia nada a fazer.
A minha nova mãe para além de doce, compreensiva e meiga era também muito exigente na nossa educação, e sabia ser bastante disciplinadora.
No dia seguinte foi à escola como lhe pediram e voltou sem dizer uma única palavra. O que lá se passou nunca ficámos a saber. Mas não deve ter sido nada bom, pois o nosso castigo foi bem prolongado. João bem tentava sair do castigo perguntando-lhe se ela já se tinha esquecido, pelo que a resposta era sempre um redondo “não”.
O que é certo é que o castigo trouxe mais estudo e, com isso, não levei muito tempo até conseguir apanhar os meus colegas de turma.
Todos estavam espantados com a minha capacidade de aprendizagem e a professora dizia mesmo que eu tinha nascido para estudar. Ao fim de três meses já era um dos melhores da turma, e sem nunca proferir uma palavra.
O meu silêncio fazia confusão a todos, até a mim. Por várias vezes tinha tentado falar, mas as palavras simplesmente não saíam.
O que é certo é que quanto mais aprendia mais vontade tinha de aprender coisas novas. Adorava geografia e história e passava horas a sonhar com outros países, outras cidades, outros continentes. Queria saber como é que se vivia lá no passado, como é que esses países e cidades surgiram. Eu tinha facilidade em aprender e a minha curiosidade ajudava a querer aprender ainda mais.
Quanto à fala, ela veio de uma forma inesperada.
Certo dia voltava eu da escola com o João e, ao passarmos em frente ao boteco, tornei a reparar nas enormes cicatrizes que o velho Zacarias tinha à volta dos pulsos e dos tornozelos. Parei em frente ao velho e observei as suas cicatrizes.
João puxou-me pelo braço:
 
- Vamos, se despacha. Estou com fome.
 
Ao entrarmos em casa João foi para o quarto trocar de roupa e eu dirigi-me à cozinha. A minha mãe estava encostada ao fogão a fazer o jantar e eu lhe perguntei:
 
- Mãe, porque é que o velho Zacarias tem cicatrizes tão grandes nos pulsos e nos tornozelos?
 
Minha mãe, que estava a mexer uma das panelas com uma colher de pau, parou ao ouvir aquela voz que nunca tinha escutado. Deixou cair a colher de pau e, se virando, ajoelhou-se a meu pés com os olhos ainda mais brilhantes que de costume e cheios de lágrimas. Com uma mão limpou as lágrimas e me abraçou num abraço bem apertado.
Não sei se toda aquela emoção vinha do facto de eu ter falado, de lhe ter chamado mãe ou de ambas. O que sei é que o abraço foi bem demorado.
Chegando-se para trás tornou a limpar os olhos e, segurando-me pelos ombros respondeu à minha pergunta:
 
- Não sei. O velho Zacarias é um dos primeiros habitantes do bairro mas ninguém sabe nada sobre ele. Vamos fazer o seguinte. Porque não lhe vai perguntar você mesmo?
 
Tornou a me abraçar e me deu um beijo na face. Depois, se levantando disse:
 
- Vá trocar de roupa e vá brincar.
 
Minha mãe era assim, gostava de dar mais importância às coisas pequenas do que às grandes e, apesar de eu saber que o que ela mais queria era que eu voltasse a falar, preferiu tentar não dar importância ao facto e respondeu à minha pergunta.
Quando o meu pai chegou a casa, minha mãe o puxou para o quarto e sem o deixar dizer uma única palavra disse-lhe comovendo-se:
 
- Ele me chamou de mãe! Ele me chamou de mãe!
 
Meu pai acalmou-a e ela lhe contou tudo o que se tinha passado.
A partir daquele dia nunca mais me calei e, às vezes, era bem impertinente, deixando os meus pais atónitos com algumas das minhas perguntas, para a alegria de João que se divertia com tudo isso.
apesar de ainda não ser destaque do Sapo... sinto-me: com vontade de escrever
música: É livro - O meu pé de Laranja-Lima - José Mauro Vasconcelos
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Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

O Velho Zacarias - Capítulo III - A Escola - parte 2

 

                Quando chegámos a casa o meu pai estava na cozinha a terminar de preparar o almoço que a minha mãe tinha começado antes de sairmos para a escola.
 
                - Então? Como foi lá na escola? – Perguntou o meu pai.
                - Está tudo certo. Vai começar amanhã. Vai para a quarta série. – Respondeu a minha mãe.
                - Então isso quer dizer que ele andava na escola lá na roça e que, finalmente, falou.
                - Não, ele nunca andou na escola e nem falou. – E a minha mãe contou toda a história ao meu pai.
 
                No fim de contar os acontecimentos com a directora a minha mãe comentou algo que lhe tinha chamado a atenção.
 
                - Sabe Marcos. É estranho. A certidão de nascimento do Lucas tinha o seu nome como pai. A mãe do Lucas registou-o com o seu nome e lhe atribuiu a paternidade.
                - Não é estranho não Clara. – Respondeu o meu pai – Eu fugi de casar com ela, mas não fugi às minhas responsabilidades. Eu assumi o Lucas e… todos os meses desde que ele nasceu que pago pensão.
 
                Clara ficou em silêncio por alguns instantes e os seus olhos cor de mel perderam um pouco de brilho.
 
                - Há mais algum segredo da tua vida que deva saber? – Perguntou a meu pai.
                - Não. Lucas foi o único segredo que guardei de você. Fui sempre um covarde em toda esta história. Será que me perdoa?
                - O que lá vai lá vai. Ao menos foi suficientemente homem para não desamparar um filho. Bom, e isso quer dizer que no final deste mês vai sobrar mais um dinheirinho. Bem falta vai fazer para comprar a cama do Lucas e mais umas roupas para ele. Agora vamos almoçar que o senhor Marcos e o senhor João estão atrasados.
 
                O meu pai abraçou a minha mãe com ternura pelo perdão concedido e os olhos da minha mãe retomaram o brilho perdido.
                Mas, durante aquela conversa não pude deixar de reparar que o meu pai todos os meses mandava dinheiro para a minha mãe lá na roça. Dinheiro que, se calhar, poderia ter aliviado a minha mãe de trabalhar no meio das canas e evitado que ela e o meu irmãozinho tivessem morrido. E, de repente, veio à minha memória o maço de notas que Isaías tinha dado a Salomão quando este foi para Uberlândia. Seria o dinheiro que o meu pai mandava, que Isaías guardava escondendo-o da minha mãe, para o dar a Salomão? Estremeci e, com todas as minhas forças odiei Isaías, culpando-o da morte da minha mãe. Mas o ódio das crianças dura pouco e não demorei a esquecer Isaías e aquele maldito dinheiro.
                Depois do almoço o meu pai retornou ao trabalho e João foi para a escola. Minha mãe limpou a cozinha e a seguir me chamou.
 
                - Lucas, hora de estudar. Vamos ter que recuperar o tempo perdido, e eu vou ensina-lo a ler e a escrever.
 
                E, assim foi. A minha mãe foi buscar um caderno e um lápis e ia escrevendo letras no papel enquanto as soletrava:
 
                - A, e, i, o, u. Repita.
 
                Mas eu ficava calado. Ela não se zangava com o meu silêncio e passava-me o lápis para a mão para eu copiar o que ela tinha escrito.
 
                - Se não fala, ao menos escreve – Dizia com ternura.
 
                E eu escrevia. E não tinha dificuldade. Rapidamente identifiquei as letras e passei a conhece-las. Depois conheci os números. Os números eram bem mais fáceis.
                No final da tarde João regressou da escola. Trocou de roupa a correr e quando se preparava para sair à porta de casa a nossa mãe deteve-o:
 
                - Aonde é que pensa que vai?
                - Ah! Mãe. Deixa eu ir brincar.
                - Nem pense. Primeiro as tarefas da escola. E ajude o seu irmão a aprender. Depois disso é que podem ir brincar.
 
                Pois. A minha lição ainda não tinha acabado. Fomos estudar e João me ia mostrando o que tinha para fazer.
 
                - Temos que juntar as letras para fazer palavras. É fácil, olha: S e A é SA e P e O é PO. S-A-P-O.
 
                Achei aquela tarefa divertida e fiquei entusiasmado ao ver o João a formar palavras. E no final da tarefa até eu já tinha conseguido formar uma palavra. Estava entusiasmado e aprender a ler não me pareceu tão complicado.
                No final das tarefas escolares fomos brincar e João fez questão de me ensinar a fazer uma pipa.
 
                - Sabe Lucas, - Disse – Foi o pai que me ensinou a fazer pipas. O pai vai nos ensinar a fazer muitas coisas. Ele sabe muitas coisas, sabia?
 
                Depois da brincadeira veio o banho e depois do banho o jantar, sempre com olhar atento e a supervisão da nossa mãe.
                Depois do jantar veio a novela e antes que ela acabasse veio a ordem de ir para a cama. A custo e sob protesto lá fomos dormir. E esta segunda noite na minha nova casa não trouxe pesadelos. Pelo contrário, dormi muitíssimo bem.
                Na manhã seguinte a ordem de levantar veio às oito da manhã. Levantar, lavar a cara e tomar o café da manhã. Depois tínhamos ordem para ver os desenhos na televisão. Mas, para mim, os desenhos acabavam cedo. A mãe me chamava para a cozinha para aulas suplementares. Mais letras, mais números e contas. Com laranjas e bananas começou a me ensinar a fazer contas. Primeiro somas, depois subtracções e até divisões ao ver que aprendia depressa. E tudo isto eu fazia calado.
                Depois do almoço vesti o uniforme e estava preparado para o meu primeiro dia de aulas.
 
                - João, já sabe, juízo na escola. – Avisou a nossa mãe - Não quero ser chamada lá por causa do vosso comportamento. Cuide do seu irmão e o ajude a encontrar a sala dele. E você menino Lucas – disse ainda se virando para mim – Quero que tenha muita atenção ao que a professora diz.
 
                Depois deu uma moeda de dez centavos a cada um:
 
- É para cada um comprar um pirolito. Cuidado para não perderem o dinheiro.
publicado por Farroscal II às 14:43
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Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

O Velho Zacarias - Capítulo II - Uma Nova família - Parte 3

 

As últimas palavras de Clara me fizeram parar e lembrar a minha avó e tudo o que ela me ensinava. Clara era uma boa mulher, de coração humilde e logo nutri por ela um forte amor e consideração.
Ao chegar à cozinha me deparei com a mesa impecavelmente posta. Cada lugar preparado e, no centro da mesa, uma jarra com flores. Quatro lugares na mesa. Eram quatro pessoas para almoçar. Clara, meu pai, João e eu. Eu fazia parte da mesa deles. Eu tinha uma nova família que me tinha aceite sem fazer qualquer pergunta.
O meu pai e Clara chegaram logo atrás e ocuparam os seus lugares na mesa.
 
- O seu lugar é ali Lucas – Disse Clara apontando para um dos lugares da mesa. – Fiz um almoço especial para o recebermos. Fiz Lasanha de frango. Gosta de Lasanha?
 
Encolhi os ombros. Nunca tinha comido, mas se era de frango ia gostar com certeza.
 
- Eu adoro lasanha, Lucas – Disse João entusiasmado – Lasanha é a melhor coisa do mundo. De certeza que vai adorar.
 
Todos se sentaram à mesa menos Clara que ficou de pé a servir os pratos.
Depois de todos servidos Clara se sentou também e o pai pediu a João para dar Graças.
 
- Obrigado senhor pelo nosso alimento e leva alimento a todas as crianças que não têm o que comer, áme… ah! É verdade. Obrigado por mandar o irmãozinho que tanto Lhe pedi. Ámen.
 
Com todos os acontecimentos que tinha tido nas últimas 24 horas, não percebi que ainda não tinha comido nada desde a manhã do dia anterior, e só ao ver o prato de comida à minha frente é que reparei que estava cheio de fome. Comi com uma sofreguidão enorme, e nem tive tempo de pensar se gostava ou não de lasanha. Devorei o prato, e Clara, percebendo o meu estado, se levantou e me serviu um segundo prato de comida que comi com a mesma vontade.
Ao acabarmos de comer o meu pai se levantou e disse:
 
- Bem, está tudo muito bom, mas eu tenho que ir trabalhar. E você, senhor João, vá tomar banho, se vestir e ir para a escola que já está atrasado. Quanto ao Senhor Lucas vai descansar e amanhã de manhã a Clara vai com você à escola para fazer a sua matrícula
 
Seguiu para o quintal, tornou a montar na bicicleta e foi trabalhar. Marcos era pedreiro.
Lucas tomou o banho, enquanto Clara arrumava a cozinha, e também seguiu o seu caminho em direcção à escola.
Eu fiquei sentado à mesa a observar Clara que lavava a louça na pia da cozinha.
 
- Sabe Lucas – Disse ela olhando para mim por cima do ombro – Ficámos todos muito contentes de vir morar connosco. Eu e o seu pai estávamos a pensar ter outro filho, e o João estava doido para ter um irmãozinho. E olha o que Deus nos deu: Um menino lindo.
 
Eu fiquei a olhar para ela e a escutar tudo o que dizia e pensava que, apesar de tudo o que tinha acontecido na minha vida, o meu coração dizia que estava em casa. Uma nova casa, uma nova família.
Clara acabou de arrumar a cozinha, pegou em minha mão e disse:
 
- Agora vamos arrumar as suas coisas e mostrar onde vai ser o seu quarto e a sua cama.
 
Seguimos para a sala onde Clara agarrou na minha trouxa e entrámos no quarto.
O quarto não era grande, mas também não era demasiado pequeno. Na parede em frente à porta tinha uma janela meio tapada por um guarda-roupa e junto às paredes laterais uma cama de cada lado. Parecia que aquele quarto sempre tinha estado preparado para acolher duas pesoas.
 
- Sabe – Disse Clara enquanto desamarrava a trouxa em cima de uma das camas – Tivemos muita sorte em ter conseguido esta cama emprestada em tão pouco tempo. Vieram trazê-la hoje de manhã. No próximo fim-de-semana vamos a um topa tudo e vamos comprar a sua cama definitiva.
 
Depois de abrir a trouxa com a minha roupa, começou a dividi-la e a dobrá-la. Calças e calções para um lado, camisetas para o outro. Encontrou também uns papeis dobrados que, após desdobrar e ver o que era, tornou a dobrá-los colocando-os a um canto da cama. O resto da tarefa não demorou muito, pois eu tinha muito pouca roupa.
 
- Bem – Tornou a dizer – Espaço no armário não vai faltar. Você tem tão pouca roupa. Mas, logo logo vamos resolver isso. Ah! E também vamos ter que arranjar um par de sapatos. Só tem esse par de chinelos velhos para andar e não quero que vá à escola de chinelos. Valha-me Deus! Olha o estado dessa roupa. Não, não vou arrumar nada. Vai tudo para lavar.
 
Tornou a colocar tudo na trouxa e foi para o quintal da casa, parando junto de uma pia. Abriu a torneira da água e deitou dentro da pia sabão em pó.
Foi uma sensação estranha a que senti. Ao vê-la mexer nas minhas coisas com tanto carinho senti uma espécie de friozinho na barriga. Não sabia o que era aquele sentimento, mas era agradável. Era bom ver cuidar das minhas coisas.
Quando começou a esfregar a primeira peça de roupa parou. Reparou que eu estava ali de pé, parado, a olhar para ela.
 
- Lucas, vá descansar. Deve estar exausto. A sua cama já está lá no quarto. Pode dormir um pouco se quiser.
 
Estava cansado sim. Exausto na verdade. Mas não queria dormir. Não iria conseguir dormir. Assim, em vez de tomar o caminho do quarto, dirigi-me à parte da frente da casa e sentei-me debaixo de uma mangueira a observar o velho que ainda estava sentado na porta do boteco.
A primeira coisa que reparei foram as enormes cicatrizes que o velho tinha nos pulsos e nos tornozelos. Eram enormes. “Que grandes feridas ele deve ter tido”, pensei para comigo. “Onde será que ele as arranjou? Devem ter doido muito”.

               E, ali fiquei a imaginar como o velho se teria magoado, me abstraindo de todos os acontecimentos que tinham decorrido na minha vida.

Não me lembro de ter adormecido, e só sei que acordei a gritar. Sei que tive um pesadelo embora não me lembre qual. Quando acordei já era de noite e estava na minha cama, deitado no colo de Clara, com o meu irmão sentado aos pés da minha cama. Clara me abraçava com força dizendo:
 
- Pronto Lucas, já passou. Foi um pesadelo, mas já passou. Descansa meu amor, não vai acontecer mais nada de mal com você. Já passou tudo.
 
E começou a alisar a minha cabeça com uma das suas mãos.
João, sentado aos pés da minha cama com um ar assustado, me olhou e disse:
 
- Fica descansado mano. Eu vou ficar aqui a tomar conta de você. Se aparecer aqui mais algum monstro para lhe assustar eu vou dar uma porrada nele que ele vai ver.
 
E comecei a chorar. Chorei muito nos braços de Clara, até que o cansaço me venceu de novo e adormeci.
publicado por Farroscal II às 14:07
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Quinta-feira, 26 de Março de 2009

O Velho Zacarias - Capítulo I - Sózinho - Parte 3

               Voltei para o meu canto e senti saudades. Sabia que não voltaria a ser abraçado e beijado pela minha mãe. Senti o meu peito apertar de dor e chorei em silêncio, até que adormeci.

                Durante esse sono sonhei. E como me lembro desse sonho! Sonhei com uma luz branca muito intensa que não me deixava ver bem. No meio dessa luz um vulto de uma mulher. Uma sombra.
                O mais engraçado é que perante aquela imagem não tive medo. Pelo contrário, experimentei uma paz como nunca tornei a sentir em toda a minha vida.
 
- Lucas, não tenha medo. Muitas coisas vão mudar e você vai ter que ter confiança. Lembre-se que nunca estará sozinho e que nada de mal lhe irá acontecer. Aceite tudo com amor, como sua avó lhe ensinou.
 
A luz desapareceu e com ela a mulher.
Quando acordei dona Maria já estava sentada ao lado da minha avó a rezar o terço. A casa estava mais iluminada com velas e candeias espalhadas pelas divisões. Inclusive o quarto da minha mãe.
Levantei-me do meu canto e, devagar, dirigi-me ao quarto onde estava a minha mãe. Entrei devagar, com medo de presenciar todo o horror que tinha visto quando meu pai trouxera a minha mãe. Mas, ao invés disso, minha mãe estava deitada na cama com um bebé nos braços. Serenos, vestidos com roupas limpas, parecia que estavam a dormir.
Estendi o braço para tocar na minha mãe com o intuito de a acordar e, quando estava quase a tocar-lhe, ouvi de novo a voz daquela mulher do sonho:
 
- Aceita tudo com amor, como a tua avó te ensinou.
 
                Baixei o braço, dei mais um passo até ficar encostado à cama. Debrucei-me sobre o corpo da minha mãe e dei-lhe um beijo no rosto, fazendo o mesmo com o meu irmãozinho.
                Quando me virei para sair do quarto vi a minha avó de pé na entrada do quarto a olhar para mim. Disse-lhe:
 
- Vó, uma senhora que apareceu no meu sonho disse-me para aceitar tudo com amor, como você me ensinou.
 
                Minha avó levantou as mãos aos céus e disse:
 
- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Mãe Maria Santíssima. Deus todo poderoso escutou as minhas preces. Luquinhas, essa senhora só pode ser Nossa Senhora. Guarde o que ele lhe disse só para você e agradeça-lhe todos os dias de sua vida por essa bênção.
 
                Abraçou-me com força, virou-se e saiu do quarto dando graças a Deus. Fui atrás dela de volta para a sala e vi que os vizinhos começavam a chegar. Nenhum vinha de mãos vazias. Um trazia biscoitos, outro chá, outro carne, outro sopa… enfim, todos traziam algo que iam depositando sobre a mesa da sala. A todos minha avó agradecia pedindo que Deus os abençoasse.
                Depressa a casa ficou cheia de mulheres rezando o terço enquanto os homens, quase todos, ficaram do lado de fora, conversando à volta de uma fogueira para se aquecerem durante a noite.
                Vagueei pelo meio de toda aquela gente que se tinha reunido para o velório da minha mãe e do meu irmãozinho, ouvindo as conversas, olhando as expressões das caras das pessoas que olhavam para mim com ar de pena e dó.
                Quando passava ouvia sempre alguém dizer:
 
- Coitada desta criança! Perder a mãe tão cedo e ficar aos cuidados de um pai bêbado. Que vai ser desta criança agora?
 
                Cada vez que ouvia tudo isto sentia uma enorme vontade de chorar, mas logo me lembrava do que a mulher me tinha dito e, repetindo para mim várias vezes, segurava o choro e seguia em frente.
                Mas as minhas forças acabaram quando vi chegar o caixão de minha mãe.
                Um homem que nunca tinha visto antes chegou num pequeno caminhão e, com a ajuda de outro homem, retiraram a caixa de madeira que levaram para dentro de casa.
                Imaginei a minha mãe dentro daquela caixão. Nunca mais vou ouvir a sua voz, sentir os seus abraços e os seus beijos, nunca mais ela vai apanhar cana com o meu pai… comovi-me e comecei a chorar. Não quis que ninguém me visse assim e corri para o mato sentando-me dobrado, agarrado aos joelhos, e chorei debaixo de uma enorme mangueira.
                Não me lembro de ter adormecido, mas, quando acordei sacudido pelo meu pai, já estava na minha cama em casa.
 
- Levanta. Vamos embora. Vou levar-te para casa de seu pai. – Disse ele com um bafo de álcool que me deixou nauseado.
- Mas o meu pai é você – respondi.
- Não quero conversa. As suas coisas já estão arrumadas. Se mexa vai.
 
Em pânico, e sem perceber o que estava a acontecer, vi a minha avó na entrada do quarto.
 
- Vó, o que foi que eu fiz. O que está acontecendo?
 
A minha avó virou-se e saiu apressadamente do quarto a chorar.
O meu pai agarrou-me com força por um dos braços e arrastou-me pela casa agarrando uma trouxa de roupa.
 
- Pai, que foi que eu fiz? Está me machucando. Por favor…
 
                Arrastou-me até ao mesmo caminhão que tinha trazido o caixão da minha mãe e empurrou-me lá para dentro sentando-se ao meu lado.
                O mesmo homem que tinha trazido o caminhão ligou o motor e arrancou.
                Minha avó ficou amparada pelas vizinhas, num pranto que eu conseguia ouvir apesar do forte barulho do motor.
apesar de ainda não ser destaque do Sapo... sinto-me: porreiro
música: João e Maria - Chico Buarque
publicado por Farroscal II às 11:32
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Quarta-feira, 25 de Março de 2009

O Velho Zacarias - Capítulo I - Sózinho - Parte 1

 
Naquela noite tive medo. Pela primeira vez na minha vida estava sozinho, sem ela do meu lado para me proteger.
Lembro-me perfeitamente de tudo como se fosse hoje. A sala estava escura como de costume, apenas com uma candeia de óleo acesa no meio da mesa.
Na única cadeira da sala meu pai debruçava-se com o peito na mesa e, com os braços esticados, segurava na garrafa de cachaça com uma mão e o copo com a outra. Camisa aberta no peito, por fora das calças de fazenda surradas e gastas, de não terem um dia de folga. As botas de couro empoeiradas e com as pontas descosidas.
Era um homem dos seus cinquenta anos, rude, analfabeto, que trabalhava de sol a sol na roça, cuidando das suas canas, que amava mais que a mim. Plantava, colhia e as moía tirando a garapa de onde fazia a rapadura e a cachaça que vendia no mercado de Jequitaí todas as semanas. Orgulhava-se da sua cachaça, que dizia ser a melhor da região, quando estava meio sóbrio, e a melhor do mundo quando estava bêbado, que era quase sempre.
Magro e seco de tanto trabalho e pinga, pele escura e quebrada do sol, olhos fundos e perdidos, de quem não tinha outro objetivo se não viver o dia de amanhã para colher mais canas.
Falava com orgulho do seu filho, fruto de um primeiro casamento e cujo a mulher tinha morrido ao dar à luz um filho que também morreria durante o parto. Falava de como ele seria um grande homem, talvez um advogado, que teria uma família feliz e próspera e se casaria com uma moça digna e não teria que se casar com uma mulher perdida para ter em casa alguém para cozinhar para ele. Eu não entendia porque dizia aquelas coisas, principalmente porque eram ditas à minha mãe.
Não era um homem mau, apesar de algumas surras que me deu, embora também nunca lhe tenha visto um carinho para mim ou para a minha mãe.
Meu irmão, Salomão, tinha partido há dois anos para Uberlândia, para casa de uns parentes que ali viviam. Tinha 15 anos e meu pai mandou-o porque queria que ele estudasse para não ser um analfabeto como ele mesmo era. Meu pai dera-lhe o nome de Salomão por se achar abençoado pela sua família e, como tal, dera o nome com esperança que Deus abençoasse o seu filho com uma inteligência divina, para que não tivesse que viver como ele. Meu pai, ouvi da minha avó, fora um homem de fé até à morte da sua primeira mulher.
No dia da partida do meu irmão, meu pai retirou uma caixa de dentro do seu armário e agarrou um maço de notas que lhe colocou na mão, advertindo-o:
 
- Quando chegares a Uberlândia procura pelo Chico Castanha. È nosso primo e não te vai negar um teto.
 
Nunca tinha visto tanto dinheiro.
Meu irmão partiu na carroça do nosso vizinho até à cidade, onde apanharia um ônibus. Nunca mais o vi ou tive notícias dele.
Minha avó, sentada no banco de correr encostado à parede, segurava o terço e, entre as ave-marias, soluçava e embebia as próprias lágrimas.
Era uma mulher devota, de um coração enorme e sempre me tratara com muito amor e carinho. Ficava com ela em casa enquanto minha mãe e meu pai cuidavam dos afazeres da roça. Falava-me do amor de Nosso Senhor, de como Ele, lá doa alto, olhava e cuidava de nós. Rezávamos o terço todos os dias enquanto ela preparava o almoço. No fim do terço rezávamos a consagração a Nossa Senhora. Minha avó falava que deveríamos aprender com Maria a ser humildes de coração e a aceitar, sem reclamar, a vida que Deus nos tinha dado, pedindo a ela que nos ajudasse a suportar a dureza da vida.
Eu não entendia porquê ela falava em dureza da vida. Eu era feliz. Brincava, corria pelo mato como um animal livre, caçava tatus, enfim, divertia-me no auge da minha infância.
Tratava a minha mãe como se fosse uma filha e repreendia o meu pai sempre que, bêbado, chamava a minha mãe de perdida:
 
- Não tem o direito de a tratar dessa forma. É a mulher que Deus te deu para te tirar da solidão. È uma mulher boa que te ama e que se dedica a você sem nunca reclamar da vida que Deus lhe deu. Deus ainda te vai castigar pela sua ingratidão.
 
E assim foi. No oitavo mês da sua gravidez, minha mãe, a quem eu nunca vira tirar um dia para descansar, apesar da enorme barriga que carregava, caiu curvada às dores enquanto cortava as canas na companhia de meu pai.
Meu pai entrou em casa quase arrombando a porta, trazendo minha mãe no colo. Eu estava com a minha avó na cozinha a preparar o almoço e a rezar o terço, como era hábito. Minha avó largou tudo e correu para junto de meu pai para o ajudar a deitar minha mãe na cama.
De dentro do quarto veio o grito de minha avó:
 
- Lucas, depressa, vai chamar a vizinha Maria e diz-lhe que chegou a hora.

 

publicado por Farroscal II às 12:50
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