Quinta-feira, 19 de Março de 2009

Homenagem aos bons

Muito se fala na decadência da sociedade, na perda de valores, no egoísmo a que o ser humano se auto-condenou. Não são raras as vezes que vemos, ouvimos e lemos cidadãos comuns a lamentarem-se e a carpirem mágoas sobre a falta de decência, o desrespeito, a falta de educação, a falta de solidariedade, a falta de ética (pessoal e profissional) e, porque não dizê-lo, a falta de amor entre iguais.

 
O mundo está perdido, dirão uns. Antigamente não era assim, dirão outros. Há ainda os que gritam aos sete ventos que é necessário uma análise critica da sociedade para se tomarem medidas para arrepiar caminho, e se construir uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária, onde não prevaleçam os interesses pessoais em detrimento dos interesses comuns.
 
Fazem-se reuniões em hotéis de luxo, escrevem-se tratados, criam-se associações e fundações para proteger isto, aquilo e o que ainda há de vir. Vai-se para as ruas, fazem-se manifestações pelos direitos humanos, os direitos das mulheres, os direitos dos negros, dos curdos e do diabo a quatro. “Salvem o mundo!” – gritam os fanáticos. “Salvem a Amazónia, as amebas e os bichinhos dos mar” – Gritam os ambientalistas. “É o apócalipse” – avisam os fundamentalistas religiosos. Enviam-se mensagens bonitas e comoventes pela Internet e apaziguam-se as consciências de quem se sente incomodado com o sofrimento alheio. E, o resultado é zero.
 
Pelo meio, aparecem sempre umas quantas figuras cheias de “boas intenções”. Empresas e privados a publicitarem doações para combater a fome, ajudar os órfãos e salvar o planeta. Gente bonita e de “sorriso sincero” que se atira para a frente das câmaras e onde o único objetivo é alcançar a simpatia e a admiração dos outros – “Já receberam a sua recompensa”.
 
Mas, o que me ainda faz acreditar neste mundo é saber que ainda existe gente, muita gente, gente anónima, sem interesses pessoais, sem procurar se evidenciar, que, em vez de falar, decidiu pôr mãos à Obra e fazer a parte que lhe compete. Gente comum como eu, tu, eles.
 
Médicos que, no fim do seu expediente, “sobem o morro” e vão auxiliar os que não têm acesso à saúde. Professores que fazem centenas, se não milhares, de quilômetros para educarem os filhos dos outros. Advogados que se despem dos fa(c)tos para auxiliarem os que não têm acesso à justiça. Gente que se desprende do seu bem estar para ir viver junto do semelhante menos afortunado. Gente que “apenas” vai a casa de um desconhecido, de um doente num hospital, de um cativo na cadeia para levar um sorriso e um ombro amigo. Gente que VAI e FAZ, sem barulho, no anonimato, sem procurar recompensa. Sem escrever livros ou fazer documentários sobre as experiências vividas. Gente que, ao chegar a noite, cansados, muitas vezes em prejuízo da própria família, ao deitarem a cabeça na almofada, se lembram do sorriso agradecido e envergonhado do irmão, que sendo rico de nada, lhe deu o único bem que ninguém lhe conseguiu tirar. E, esta gente, dorme tranquilamente, porque encontrou no nada toda a riqueza que precisava para se sentir completo.
 
Estes são os bons. Aqueles que ninguém conhece. “Formiguinhas” anónimas deste formigueiro, que trabalham sem cessar para o bem de todos nós.
 
Bem hajam os bons.
apesar de ainda não ser destaque do Sapo... sinto-me: cansado de hipocrisia
música: Canção da América - Milton Nascimento
publicado por Farroscal II às 20:54
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4 polimentos:
De Gajo a 20 de Março de 2009 às 11:27
Se queres que te diga, eu também ando cansado de tanta hipocrisia. As pessoas são sonsas, egoístas e narcisistas. O que ainda me anima, enfim, vai animando, é que de vez em quando ainda vejo alguém com bom-senso e que pensa da mesma maneira que eu. As tais formiguinhas...
Abraço
De Farroscal II a 20 de Março de 2009 às 12:27
pode parecer que estou a ser piegas mas, a maioria das pessoas ainda não percebeu que a felicidade, ou atigi-la , não está em nós e nas nossas decisões, mas sim no outro. Enquanto as pessoas não se "despirem" de si mesmas e procurarem o semelhante não vão chegar lá.
De Gajo a 20 de Março de 2009 às 14:25
"a felicidade, ou atigi-la , não está em nós e nas nossas decisões, mas sim no outro"
Queres tu dizer que a nossa felicidade provém das outras pessoas directamente e de nós indirectamente? Eu acho que percebi o que querias dizer e sinceramente nunca tinha visto as coisas por esse prisma. Mas tens razão, num cenário absolutamente radical, se não existisse mais ninguém à nossa volta, eramos infelizes. Mas a felicidade, nestes casos é e tem que ser recíproca, i.e., cada acção gera uma reacção em duplicado (3ª lei de Newton acho eu...).
Bem visto, de facto alertaste-me para uma consciência que nunca tinha tido assim tão iluminada.
Abraço
De Farroscal II a 20 de Março de 2009 às 17:26
É por aí. Se é do Newton não sei, mas uns séculos antes, Inácio de Loyola ensinava nos seus exercício espirituais a medida do "tanto quanto" - Receberei tanto quanto dou, e por aí vai. Mas também houve outro que falou disso há dois mil anos atrás. Esse caíu foi um pouco em descrédito... infelizmente.

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