Quarta-feira, 11 de Março de 2009

"Pastéu di Bélem"

Isto de viver fora da nossa terra natal tem os seus problemas – Principalmente os de ordem culinária (confesso que, para além da família e dos amigos, é a única coisa que sinto falta de Portugal).

 
Quantas vezes dou por mim a lamber os beiços a pensar nas incomparáveis iguarias do nosso país à beira mar plantado. Um cozido à portuguesa, uns pezinhos de coentrada, umas migas, e os doces, sempre os doces. Que saudades duns palmiers, duns pastéis de feijão, uns ovos moles e, no caso, duns pastéis de Belém.
 
A cidade onde moro está no norte de Minas Gerais e tem, apenas, cerca de quatrocentos mil habitantes. É considerada uma cidade pobre. Pouca indústria, algum comércio e muito boi (de quatro patas). Como tal, a faixa de população capaz de adquirir produtos de qualidade e, conseqüentemente, caros é baixa, o que faz com que esses mesmos produtos escasseiem. Um bom vinho, um bom pão, um bom azeite, cogumelos (caríssimos), entre outros, fica difícil de obter.
 
Assim, vamos ficando na vontade e à espera das encomendas que a família vai enviando de Portugal.
 
Estava eu, certo dia, a trabalhar descansado quando uma colega chegou ao pé de mim e disse.
 
- Hoje comi um pastel de Belém lá no Jacks. Que delícia.
- É sério? Pastel de Belém? Tem a certeza?
 
Confesso que dei algum crédito à fantástica notícia que chegava aos meus ouvidos. Sabia que havia casa de Pastéis de Belém em S. Paulo e, como trabalho no sector de panificação, acreditei que alguém tivesse conseguido fazer, não o pastel de Belém, mas algo parecido com um pastel de nata.
 
Comecei a salivar instantaneamente e perguntei:
 
- Mas é mesmo o pastel de Belém de Portugal? Um pastelzinho com massa folhada por fora e o creme por dentro?
- É sim. Uma maravilha e com requinte. Até acendem um maçaricozinho para “esquentar” e queimar por cima.
- ...?!?!?!?!? Maçarico? “Pera” aí! Está qualquer coisa errada nessa história. Isso não existe, pelo menos nos pastéis de Belém que eu conheço.
 
Obviamente que cheguei logo à conclusão que não se tratava de pastéis de Belém. Mas fiquei curioso e fui à dita casa para experimentar o tal do pastel – Quem sabe se não seria parecido com o dito.
 
- Ouvi dizer que têm Pastel de Belém.
- Temos sim. Quer um?
- Quanto custa? (no Brasil tem que se perguntar sempre o preço das coisas antes de as comprar)
- R$2,20.
- Como? R$2, 20 por um Pastel de Belém??? (No Brasil o um Real está como um euro para o português – 2,20 Euros por um pastel de nata? Tá doido!!!)
- Sim.
- Tem desconto? (No Brasil tem que se pedir sempre desconto).
- Não. Já é o preço com desconto.
- Tudo bem. Me dá logo um antes que me arrependa.
- Só um minuto. Vou chamar o meu colega para acender o maçarico.
- ?????
- É para esquentar e queimar um pouquinho por cima.
- Carece não. Me dá logo um assim mesmo.
- Aqui está.
- ... ???!!!. Moça, isso daqui não é um “pasteu di Belém”.
- É sim.
- Se você diz eu vou fingir que acredito.
 
Bem, o dito “patéu di Belém” tinha o tamanho do pastel de Belém, a forma do pastel de Belém, mas, obviamente não era um pastel de Belém. Primeiro, a massa de fora não era folhada, mas sim uma espécie de massa desses biscoitos caseiros amanteigados. E, o creme, apesar de até ser bom, estava muito longe do delicioso pastel de nata, quanto mais do pastel de Belém. E claro, como não tinha nada a ver, aquela crostinha queimada que fica em cima do pastel de nata, tinha que ser queimada artificialmente com... o maçarico.
 
No dia seguinte claro que reclamei com a minha colega por causa de tamanho “trambique”. A dita, pessoa culta, honesta e amiga do dono do “estaminé”, levou o recado do portuga. Voltou no dia seguinte com a informação de que o dono continuava a afirmar que aquilo era um “pastéu di Bélem” e que tinha sido um consultor de S. Paulo que ele contratou (aqui o que é de S. Paulo é bom), que lhe tinha fornecido a receita.
 
Conclusão: Continuei com saudades do Pastel de Belém e ainda fui lesado em R$2,20. Ninguém merece...
apesar de ainda não ser destaque do Sapo... sinto-me: porreiro
música: O Malandro - Chico Buarque
publicado por Farroscal II às 15:00
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11 polimentos:
De Nucha a 11 de Março de 2009 às 21:45
Amei a estória...
Abraço!
De Farroscal II a 12 de Março de 2009 às 13:47
Olá, olá.
Obrigado pela visita. Volte sempre
Abraço
De Diogo a 12 de Março de 2009 às 12:33
Oh Jorginho! E chegaste a essa provecta idade sem conhecer o "Portuguese Egg Tart": uma coisa que eles têm cá em Macau, que dizem que é Português e, de facto, tem o mesmo aspecto de um Pastel de Nata, mas o aspecto é tudo... O creme de dentro não tem nada a ver! E então o verdadeiro Pastel de Belém, quentinho, com canela...
Ayyyy! Que é hora da janta e eu nestes desvarios!
De Farroscal II a 12 de Março de 2009 às 13:49
Pois é. Se existe alguém que me entende és tu. Mas, pelo menos, tu ainda vais tendo acesso a essa gastronomia fantástica que só os chineses sabem fazer.
Abraço (abraço longo este)
De Vera - Gata preta a 13 de Março de 2009 às 05:09
Oh amigo, mas aí tudo é pastel de tudo... ainda me lembro de pedir um numa banca e passar meia hora a comer uma espécie de croquete, sabe lá Deus, feito de quê!
"Oh gentxi isquizita... tá djificiu dji encontrá pástéi dji belém cara!"
Nos picos da loucura... só tentar cozinhar mesmo! que tal?
:p
Quanto ao dicionário ... bem... depois de me voltar para o meu prefessor de fotografia em Belo Horizonte e dizer para o rapaz "não me gozar" (tipo: não me gózes), logo a seguir a chamar a "rapariga do segundo ano"... bem... cheguei a portugal com mais sotaque brazuca do que algario...lol
Beijinhos****
(vai começar a época dos caracóis... :) ;) )
De Farroscal II a 13 de Março de 2009 às 13:06
Hmmm... Comeste, portanto, um kibe. Diz que é de carne moída (carne picada, para os tugas).
Tentar cozinhar? já tentei. Até pensei fazer negócio com isso. Mas, a massa folhada não saíu. Da primeira vez ainda ficou mais ou menos, mas das outras vezes a massa não folhou. O creme ficou uma delícia.
Algarvia com sotaque brazuca? Uma muié doidona marafada? interessante.
Aqui não há caracóis... buááááááá!
Mas tem carne de sol com mandioca e Skol trincado de frio
De Vera a 13 de Março de 2009 às 14:53
lol..Skol?! não é má... mas já te esqueceste das belas "bjecas" tgas?
De Farroscal II a 13 de Março de 2009 às 15:01
Claro que não esqueci. As sagres chegam no dia 31... se não ficarem na alfândega.
De Vera a 13 de Março de 2009 às 23:39
lol... logo vi.
De Lisboa a 8 de Maio de 2009 às 20:27
A receita dos pasteis de belem é segredo da fabrica logo é impossivel que fosse um pastel de belem... no maximo seria um pastel de nata (parecido mas não igual)
De Farroscal II a 8 de Maio de 2009 às 20:33
Exacto. A minha esperança era que fosse parecido com o pastel de nata. Mas nem isso.
Obrigado pela visita e volte sempre

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