Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Sandes de couratos e uns copos de tinto

 Na falta de um tema melhorzinho... futebol.

 
Já fui um fervoroso adepto de futebol. Desde muito novinho que sigo os campeonatos de futebol e me delicio com vinte e dois parvalhões a correr atrás de uma bola.
 
Contudo, essa paixão extinguiu-se. Hoje em dia já não consigo ver no campo aquilo que me fazia vibrar.
 
Sempre fui sportinguista (a minha mãe sempre me ensinou a ser pelos fracos e oprimidos), mas nunca fui faccioso. Gostava de ver e ouvir os jogos e ficava por aí. Sofria, roia as unhas, mas, quando o jogo acabava, acabava mesmo. Era só um jogo de futebol.
 
Mas havia paixão. E, a paixão era tanta que, quase todos os dias ia para casa do Zé Manel fazer campeonatos de caricas. O Zé tinha o campo do subuteo (é assim que se escreve? Já não lembro) e as caricas. Compravamos os cromos da bola (literalmente) e colávamos a cara dos jogadores nas mesmas. Brincávamos horas e horas a fio. Eu sportinguista e ele benfiquista. Tinhamos as equipas completas do campeonato nacional, algumas da Europa e, o nosso orgulho, a coleção completa do campeonato do mundo realizado no México em 86. Quando as jornadas davam um Sporting x Benfica via-se verdadeiros derbys. Mas sempre com muito respeito e nunca brigamos por causa disso. Acho que aprendi com ele a respeitar sempre os adversários.
 
Uns anos mais tarde comecei a freqüentar os estádios de futebol. Ia regularmente ver os jogos do Algés, ao domingo de manhã ia com o meu pai ao campo do Casa Pia ver os jogos do juniores onde jogava um grande amigo meu, como eu era atleta do Belenenses (treinava basket, pois nunca era convocado para jogar) ia ao Restelo ver o Belém e, muito de vez em quando, ia ao velhinho José de Alvalade para ver o meu Sporting.
 
O pessoal “ia à bola” para se distrair e passar um tempo agradável. É claro que havia uns quantos parvalhões a causar tomulto. Mas, na maioria, apesar de se chamar uns quantos nomes à santa mãezinha dos árbitros, o pessoal queria era ver os jogos, comer umas sandes de courato e beber uns tintos.
 
Na segunda-feira comprava-se “A Bola” para ler os comentários ao jogo e dos jogadores (o que o pessoal se divertia com os comentários dos jogadores – verdadeiras pérolas de oratória) e aguardava-se até ao domingo para tornar a ver o futebol. E havia futebol.
 
O jogadores eram correctos, leais, não se atiravam para a piscina (quem não se lembra do Néné que nunca sujava os calções e marcava golos como o caraças) e nem tentavam enganar os árbitros. É claro que já havia corrupção e prendinhas para os árbitros mas não se passava a vida a dizer mal dos árbitros.
 
Os jogadores amavam, na maior parte deles, os clubes pelo qual jogavam. Havia o verdadeiro amor à camisola.
 
Hoje já nada disto existe. Futebol já era. Os adeptos passaram a viver aquilo como se fosse a única coisa importante nas suas vidas (ó frustraçãozinha danada), passando os dias nos sites de jornais desportivos a ofenderem-se uns aos outros, tentado provar que pertencem ao maior clube do mundo (e quem sabe o segundo melhor da Europa) para terem alguma coisa na sua vida de que se possam orgulhar. Os jogadores deixaram de jogar à bola para ver quem consegue enganar mais os árbitros, ganhando, para isso, num mês mais do que qualquer comum mortal ganha em dez anos de trabalho (nos piores casos). Os dirigentes têm mais protagonismo  que os “artistas”. Nos jornais fala-se de tudo menos dos jogos. O futebol deixou de ser um jogo, um desporto, para passar a ser uma indústria (falida) que prefere o lucro em vez do espetáculo. E, o mais importante... já não há sandes de couratos nem copos de tinto. Mas o pessoal gosta.
 
Deixei de ligar ao futebol. Quero lá saber se o Sporting perde ou ganha. Se levou cinco do Bayern ou se ganhou ao Benfica. Bem, não é bem verdade. Deixei de ligar ao futebol profissional. Apesar de estar a 8.000 km de casa, não passo um fim de semana sem saber quanto ficou o jogo do meu Atlético Riachense.
 
Não foi há muito tempo que eu passava as tardes de domingo no campo do Riachense a ver o meu Atlético Riachense a disputar o Campeonato Distrital de Santarém ou a Terceira Divisão Nacional. O pessoal ali ainda vai ao futebol. Vê jogadores, na sua maioria nascidos na terra, a suar a camisola por meia duzia de tostões. O pessoal se diverte chamando nomes à santa mãezinha do árbitro. Ainda fica atrás da baliza adversária a tentar distrair o guarda-redes denegrindo as suas capacidades futebolísticas, mas pedindo-lhe desculpa no final do jogo. E quando o jogo acaba cada um vai à sua vida que tem mais que fazer.
 
Ali, o pessoal ainda vai à bola para se divertir e... comer umas sandes de couratos e beber uns copos de tinto. Só isso.
apesar de ainda não ser destaque do Sapo... sinto-me: Riachense
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publicado por Farroscal II às 12:36
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