Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

A falta que uma estratégia faz

Tinha um ano e quatro dias quando se deu o 25 de Abril. Obviamente, não sei o que é viver numa ditadura nem consigo imaginar o sofrimento daqueles que viveram a sua forma mais extrema de actuar. Contudo, não creio que isso me tire o direito de a tentar analisar e tirar algumas ilações.

 
Na minha humilde ignorância, tento analisar, de uma forma inteligente e imparcial, aquilo que teria sido o antigo regime. Tento despir-me das razões dos que apoiavam ou lutavam contra o então, instalado, regime político. Afinal, “nem tudo é tão mau como parece nem tão bom como aparenta”.
 
Parece-me inegável que, apesar de todas as atrocidades praticadas, da guerra colonial e do isolamento a que o país foi lançado – não é isso que pretendo analisar -, Salazar era dotado de um enorme patriotismo, não usava o poder para seu proveito pessoal e, mal ou bem, tinha uma estratégia de governação para desenvolver o país. O porto de Sines é o exemplo mais gritante dessa estratégia. Apesar de só ter sido começado a ser construído em 1973, o seu planeamento já vinha bem lá de trás. Salazar sabia que era a porta de entrada para a Europa e quis se aproveitar disso, para além, claro, de ser também a porta de entrada do que vinha das colónias. Mal ou bem, era uma estratégia. Hoje o porto de Sines é um dos principais portos da Europa e de fundamental importância para a política energética de Portugal (apesar de muito mal aproveitado pelos sucessivos governos democráticos).
 
Apesar do romantismo pós-ditadura, em que se apelidou a revolução como uma vitória do povo, os historiadores apresentam a revolução como um movimento militar que se insurgia contra a guerra colonial e contra a situação precária dos militares das forças armadas. Obviamente que não quero tirar aqui o mérito de todos aqueles que lutaram heroicamente contra a ditadura, dos quais exalto a figura de Álvaro Cunhal, só para dar um exemplo.
 
Alguns historiadores defendem também que a revolução militar poderá ter sido um erro, dado que a ditadura já não era tão intensa e, segundo afirmam, já estaria numa fase de transição para a democracia. Mas, precipitada ou não, ela aconteceu.
 
Os conturbados anos que se seguiram à revolução podem-se apelidar de “normais” dado que, historicamente, todos os países que saíram de ditaduras os viveram. São momentos de transição, onde se cometem erros, excessos, vinganças e também, porque não dizê-lo, injustiças.
 
Com a normalidade social reposta passou-se então a viver em democracia. Uma democracia com virtudes, com defeitos, mas bem melhor, penso eu, do que uma ditadura.
 
Contudo, depois da revolução nunca vi, ou tive conhecimento disso, o país ter uma política estratégica, quer social quer económica. Nunca vi um governo traçar uma linha, um caminho para o país – “queremos ir daqui para ali”; “o nosso objetivo é crescer tantos por cento ao ano”; “a estratégia do país é esta”. Nunca vi um governo apelar a uma unidade nacional para se atingir um determinado objectivo. O único que sempre me pareceu mais perto de ter uma estratégia foi o governo de Cavaco Silva. Viu que o país não tinha infra-estruturas (que são fundamentais para a economia de qualquer país), que estava obsoleto e, mal ou bem, tentou fazer alguma coisa.
 
Hoje, Portugal está completamente ultrapassado. Não tem indústria, não tem agricultura, não tem pescas, não tem comércio, não tem tecnologia, não tem uma estratégia. Está transformado numa estância balnear, e de qualidade duvidosa.
 
À classe política falta comprometimento, falta visão, falta competência, falta liderança, falta patriotismo. Não aquele patriotismo associado a um nacionalismo néscio de intolerância, mas aquele patriotismo, e desculpem-me a franqueza, que, mal ou bem, o Dr. Oliveira Salazar tinha de sobra.
 
Aquilo que vemos hoje na sociedade civil não é mais do que o reflexo de um povo sem rumo, sem orientação, sem um objectivo comum, sem... uma estratégia. Um rumo e uma estratégia  não para mostrarmos aos outros que somos bons, mas para crescermos e evoluirmos. Uma estratégia como têm, por exemplo, americanos, ingleses, alemães, chineses, brasileiros, indianos, que sabem, mal ou bem, onde querem chegar e sabem como lá chegar.
 
O que nos falta? A nós falta-nos um líder, porque capacidade temos de sobra. Falta-nos alguém que nos aponte o caminho. Um D. Sebastião, dirão os mais românticos.
 
Assim, apesar de festejarmos 35 anos de liberdade, continuamos, não orgulhosamente, mas estupidamente sós.

 

P.S. - Estupidamente sós não! Esquecime de referir que temos os nossos amigos europeus, a quem, de fato e gravata, vamos pedir esmola (como diria um grande amigo meu, o Professor JURB).

apesar de ainda não ser destaque do Sapo... sinto-me: com esperança
música: E depois do adeus - Paulo de Carvalho
publicado por Farroscal II às 15:02
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