Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

O Velho Zacarias - Capítulo III - A Escola - parte 2

 

                Quando chegámos a casa o meu pai estava na cozinha a terminar de preparar o almoço que a minha mãe tinha começado antes de sairmos para a escola.
 
                - Então? Como foi lá na escola? – Perguntou o meu pai.
                - Está tudo certo. Vai começar amanhã. Vai para a quarta série. – Respondeu a minha mãe.
                - Então isso quer dizer que ele andava na escola lá na roça e que, finalmente, falou.
                - Não, ele nunca andou na escola e nem falou. – E a minha mãe contou toda a história ao meu pai.
 
                No fim de contar os acontecimentos com a directora a minha mãe comentou algo que lhe tinha chamado a atenção.
 
                - Sabe Marcos. É estranho. A certidão de nascimento do Lucas tinha o seu nome como pai. A mãe do Lucas registou-o com o seu nome e lhe atribuiu a paternidade.
                - Não é estranho não Clara. – Respondeu o meu pai – Eu fugi de casar com ela, mas não fugi às minhas responsabilidades. Eu assumi o Lucas e… todos os meses desde que ele nasceu que pago pensão.
 
                Clara ficou em silêncio por alguns instantes e os seus olhos cor de mel perderam um pouco de brilho.
 
                - Há mais algum segredo da tua vida que deva saber? – Perguntou a meu pai.
                - Não. Lucas foi o único segredo que guardei de você. Fui sempre um covarde em toda esta história. Será que me perdoa?
                - O que lá vai lá vai. Ao menos foi suficientemente homem para não desamparar um filho. Bom, e isso quer dizer que no final deste mês vai sobrar mais um dinheirinho. Bem falta vai fazer para comprar a cama do Lucas e mais umas roupas para ele. Agora vamos almoçar que o senhor Marcos e o senhor João estão atrasados.
 
                O meu pai abraçou a minha mãe com ternura pelo perdão concedido e os olhos da minha mãe retomaram o brilho perdido.
                Mas, durante aquela conversa não pude deixar de reparar que o meu pai todos os meses mandava dinheiro para a minha mãe lá na roça. Dinheiro que, se calhar, poderia ter aliviado a minha mãe de trabalhar no meio das canas e evitado que ela e o meu irmãozinho tivessem morrido. E, de repente, veio à minha memória o maço de notas que Isaías tinha dado a Salomão quando este foi para Uberlândia. Seria o dinheiro que o meu pai mandava, que Isaías guardava escondendo-o da minha mãe, para o dar a Salomão? Estremeci e, com todas as minhas forças odiei Isaías, culpando-o da morte da minha mãe. Mas o ódio das crianças dura pouco e não demorei a esquecer Isaías e aquele maldito dinheiro.
                Depois do almoço o meu pai retornou ao trabalho e João foi para a escola. Minha mãe limpou a cozinha e a seguir me chamou.
 
                - Lucas, hora de estudar. Vamos ter que recuperar o tempo perdido, e eu vou ensina-lo a ler e a escrever.
 
                E, assim foi. A minha mãe foi buscar um caderno e um lápis e ia escrevendo letras no papel enquanto as soletrava:
 
                - A, e, i, o, u. Repita.
 
                Mas eu ficava calado. Ela não se zangava com o meu silêncio e passava-me o lápis para a mão para eu copiar o que ela tinha escrito.
 
                - Se não fala, ao menos escreve – Dizia com ternura.
 
                E eu escrevia. E não tinha dificuldade. Rapidamente identifiquei as letras e passei a conhece-las. Depois conheci os números. Os números eram bem mais fáceis.
                No final da tarde João regressou da escola. Trocou de roupa a correr e quando se preparava para sair à porta de casa a nossa mãe deteve-o:
 
                - Aonde é que pensa que vai?
                - Ah! Mãe. Deixa eu ir brincar.
                - Nem pense. Primeiro as tarefas da escola. E ajude o seu irmão a aprender. Depois disso é que podem ir brincar.
 
                Pois. A minha lição ainda não tinha acabado. Fomos estudar e João me ia mostrando o que tinha para fazer.
 
                - Temos que juntar as letras para fazer palavras. É fácil, olha: S e A é SA e P e O é PO. S-A-P-O.
 
                Achei aquela tarefa divertida e fiquei entusiasmado ao ver o João a formar palavras. E no final da tarefa até eu já tinha conseguido formar uma palavra. Estava entusiasmado e aprender a ler não me pareceu tão complicado.
                No final das tarefas escolares fomos brincar e João fez questão de me ensinar a fazer uma pipa.
 
                - Sabe Lucas, - Disse – Foi o pai que me ensinou a fazer pipas. O pai vai nos ensinar a fazer muitas coisas. Ele sabe muitas coisas, sabia?
 
                Depois da brincadeira veio o banho e depois do banho o jantar, sempre com olhar atento e a supervisão da nossa mãe.
                Depois do jantar veio a novela e antes que ela acabasse veio a ordem de ir para a cama. A custo e sob protesto lá fomos dormir. E esta segunda noite na minha nova casa não trouxe pesadelos. Pelo contrário, dormi muitíssimo bem.
                Na manhã seguinte a ordem de levantar veio às oito da manhã. Levantar, lavar a cara e tomar o café da manhã. Depois tínhamos ordem para ver os desenhos na televisão. Mas, para mim, os desenhos acabavam cedo. A mãe me chamava para a cozinha para aulas suplementares. Mais letras, mais números e contas. Com laranjas e bananas começou a me ensinar a fazer contas. Primeiro somas, depois subtracções e até divisões ao ver que aprendia depressa. E tudo isto eu fazia calado.
                Depois do almoço vesti o uniforme e estava preparado para o meu primeiro dia de aulas.
 
                - João, já sabe, juízo na escola. – Avisou a nossa mãe - Não quero ser chamada lá por causa do vosso comportamento. Cuide do seu irmão e o ajude a encontrar a sala dele. E você menino Lucas – disse ainda se virando para mim – Quero que tenha muita atenção ao que a professora diz.
 
                Depois deu uma moeda de dez centavos a cada um:
 
- É para cada um comprar um pirolito. Cuidado para não perderem o dinheiro.
publicado por Farroscal II às 14:43
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