Terça-feira, 14 de Abril de 2009

Portugal tem talento?

Imaginem um reality show em Portugal chamado “Os Tugas têm talento”. Um programa que visava encontrar novos talentos neste jardim à beira mar plantado. Estão a imaginar?

Agora imaginem o naipe de juízes: Rui Reininho, Ana Malhoa e Luís Represas. Continuam a seguir o raciocínio?
Agora pensem numa senhora de quase 50 anos, de lenço na cabeça, com bigode e tudo, vestindo um vestidinho bem simples, estampado de malmequeres, calçando uns soquetes brancos e umas socas vermelhas e vinda da aldeia de Bravo no concelho da Sertã. Completaram o quadro?
A senhora entra no palco. O pessoal ri da figura. Luís represas pergunta:
- Então! Veio à cidade?
- Vim xim xenhora? E estou a gostar muito.
- E aproveitou para passar por cá não é?
- Foi mais ao contrário. Eu vim aqui e aproveitei para visitar Lisboa.
- E a senhora é de onde?
- Eu sou da aldeia de Bravo no concelho da Sertã.
- Ah! Uma mulher de trás-os-montes. E veio aqui fazer o quê mesmo?
- Trás-os-montes?! Bem, vim cantar.
- Ah Tá! E acha que tem pinta para isso?
- Não tantas como o senhor, mas tenho uma muito engraçada aqui na coxa que até lhe posso mostrar...
- Não precisa, obrigado. Ufa... foi por pouco
(a platéia cai na gargalhada) e Represas continua:
- E o que quer ser quando for grande?
- Quero ser cantadeira senhor Represas. Quero ser como a Beatriz Costa.
(a plateia torna a cair na gargalhada)
- Como a Beatriz Costa hein! Não faz a coisa por menos. E porque é que ainda não é cantora?
- Porque nunca tive a oportunidade. Foi por isso que vim aqui hoje
- E o que vai cantar?
- Aldeia da Roupa Branca.
- Vamos lá ouvir “isso” então.
E a senhora começa:
- Ai rio não te queixes, ai o sabão não mata...
E por ali vai, numa voz que faria corar de vergonha a própria Beatriz Costa, tal a qualidade apresentada.
No final, o público fica meio sem saber como reagir. Batemos palmas a tal figura? Dizemos Bravo, Bravo? E se o Juri não gostou? Vamos esperar a opinião do Juri.
Rui Reininho começa:
- Bem, querida, a menina vem aqui cantar dessa forma? Nunca lhe disseram que para ser artista em Portugal não precisa saber cantar? Olhe para mim que sou o exemplo disso. A minha resposta é não.
Segue-se a Ana Malhoa:
- Ai que ridículo esse modelito. Que fora de moda. Sem decote e sem seios siliconados. Além disso, canta melhor que eu e isso não é possível. É não.
Por fim, o presidente do Juri.
- Que ridículo querer ser melhor que a Beatriz Costa. Ninguém consegue igualar essa diva. Além disso tem pouca pinta para cantora. A resposta é não.
E a pobre senhora sai do palco debaixo de uma estrondosa vaia.
 
Esta história é de ficção, mas não andei muito longe da verdade pois não? Será que Portugal saberia reconhecer um verdadeiro talento como o da senhora que se segue? Eu, infelizmente, e pela leque de cantores que temos, acho que não.

 

 

apesar de ainda não ser destaque do Sapo... sinto-me: estupefacto
música: Dream a Dream - Les Miserables
publicado por Farroscal II às 17:01
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2 polimentos:
De Cátia a 6 de Abril de 2011 às 11:17
Não percebi se é alguma coisa pessoal com a aldeia em si...
Qualquer das maneiras, nunca la deve ter ido! A sua opiniao de "mulheres de lenço na cabeça, bigode e a falar axim no bravo", só se for realmente alguem da sua familia... :)
De Farroscal II a 6 de Abril de 2011 às 21:42
Olá Cátia,
Já nem lembrava deste post . Obrigado por me relembrar.
Olhe, para ser franco, conheço Bravo sim. Só lá estive uma vez, com os meus dezoito anos (já passaram 20 anos! Estou a ficar velho), e lá vivi uma página bem marcante da minha história e que ainda hoje recordo. Não me lembro de alguma vez ter sido tão bem acolhido numa casa.
Vou contar-lhe a história antes de responder ao seu comentário.
Andava eu a fazer entrevistas para uma empresa de estudos de mercado, lá em Bravo, quando bati a uma porta de uma casinha velha, mas muito bem tratada. Apareceu um senhor, que deveria ter mais de 70 anos. Nem me deixou falar, fez questão que eu entrasse na sua casa, me sentasse à sua mesa e comesse com ele uma bela fatia de presunto e umas rodelas de chouriço com um, igualmente, belo pão caseiro. Com um copo de tinto caseiro à acompanhar, claro está. Acredite ou não, aquele senhor que não me conhecia de lado nenhum nem me deixou falar. Comemos. No fim de termos comido o senhor então falou: Agora sim, diga lá ao que veio. Expliquei o meu trabalho e fiz as perguntas que o senhor respondeu sempre muito bem. Ainda hoje guardo na memória uma das respostas. Quando lhe perguntei se ele acreditava nas notícias que passavam na televisão. O simpático senhor me respondeu: "Acreditar que há tanta mortandade para lá dos montes? Não acredito não senhor". E a Cátia acredite se quiser, mas foi assim mesmo como lhe conto. E hoje, ao fim de 20 anos, ainda guardo a forma como fui recebido por aquele senhor. Nunca fui tão bem recebido na minha vida.
Voltando ao seu comentário, a escolha da aldeia foi mesmo pelo carinho que fiquei por ela e por saber que de pequenas aldeias podem saír coisas e pessoas extraordinárias. Se reparar, o post é uma critica ao pseudointelectualismo dos fracos (digo eu) artistas mais mediáticos que temos (sim, que Portugal tem muitos e bons artistas) e que muitos e bons não conseguem ter espaço para se darem a conhecer por causa destes mesmos... bostas.
Posso aceitar que talvez tenha exagerado um pouquinho na caracterização da senhora, e se ofendi a Cátia, peço-lhe sinceramente que me perdõe. Agora, não sei se realmente já não existirão mulheres destas (de bigode e lenço na cabeça e a falar axim ) no Bravo, mas saiba que na minha família havia sim, e há ainda, mulheres de bigode e lenço na cabeça. A minha avó era uma delas, e ainda existem umas quantas sobrinhas da minha avó (primas minhas portanto) de bigode e lenço na cabeça. Só não falam axim porque a pronuncia ribatejana é diferente. Mas também tem coisas giras a pronuncia da minha aldeia. Obrigado por visitar o meu blog, embora esteja... desativado.

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