Terça-feira, 14 de Abril de 2009

O velho zacarias - capítulo III - A escola - parte 1

                      Acordei na manhã seguinte e já o sol ia alto. A cama de João estava vazia e, na casa, reinava um grande silêncio.

                Levantei-me e fui directo para a cozinha onde Clara preparava uns legumes para o almoço. Ao reparar na minha presença Clara disse:
 
                - Bom dia Senhor dorminhoco. Dormiu bem?
 
                Acenei com a cabeça que sim.
 
                - Então vá tomar um banho. Na casa de banho está uma toalha dobrada e a sua roupa lavada para se vestir e irmos fazer a matrícula na escola. Depois de tomar banho venha tomar o seu café.
 
                Fui tomar o meu banho, o primeiro de água quente por sinal. A água estava tão gostosa que perdi a noção do tempo. Fiquei debaixo daquele chuveiro, parado, a sentir aquela água quente a escorrer pelo meu corpo. Demorei tanto tempo que Clara veio me chamar dizendo que já estávamos muito atrasados.
                Terminei o meu banho e vesti a minha roupa. Roupa que nem parecia a minha de tão lavada e cheirosa que estava. Perdi mais alguns instantes a cheirar a roupa e voltei para a cozinha.
                Apressadamente, como Clara tinha mandado, engoli um copo de café com leite e uns biscoitos de queijo que ela mesmo tinha feito.
                Clara chamou por João, que brincava no quintal, mandou-o vestir roupa lavada e, enquanto João se arrumava, foi ao seu quarto de onde saiu com uns papéis na mão. Os mesmo que tinha tirado da minha trouxa.
                Seguimos de mãos dadas até à escola, o mesmo edifício grande e murado que tinha visto no dia anterior quando vinha na bicicleta do meu pai.
                Ao chegarmos ao portão da escola Clara pediu ao porteiro para falar com a Directora. O porteiro mostrou o caminho até à sala da directora e pouco depois já estávamos sentados em frente a ela.
 
                - Bom dia Sra. Directora – Disse Clara.
                - Bom dia. O que a trás por cá Clara?
                - Venho inscrever o meu filho Lucas na escola.
                - Filho?! – Perguntou espantada a Directora – Mas eu pensei que só tinha o João!
                - E era. Mas as coisas mudaram.
 
                Clara, rapidamente, contou toda a minha história à directora, que a ouvia atentamente. No final da história a directora, consciente da minha triste situação disse:
 
                - Clara, a situação não é assim tão simples. É preciso saber se ele andava na escola lá na roça e em que série estava, depois pedir o registo histórico dele.
 
                A directora virando-se para mim perguntou:
 
                - Lucas, andavas na escola lá na roça?
 
                Com a cabeça disse que não.
 
                - Não sabes ler nem escrever?
 
                Novamente respondi com a cabeça que não.
 
                - E não tens uma língua para falar?
                - Não proferiu uma palavra desde que chegou – Interrompeu Clara – Deve ser do trauma.
                - Entendo. – Disse a directora – Bem, o facto de ele nunca ter andado na escola facilita em termos de papeladas e burocracias. Mas há mais um problema. É que se ele nunca andou na escola teria que começar pela primeira série e é de todo impossível pois não tenho qualquer vaga. Pela idade dele já deveria estar na quarta série, aí tenho vaga, mas ia atrasar muito o resto da turma. A professora ia ter que perder muito tempo com ele e, assim, perder tempo com todos os outros.
                - Pois que seja na quarta série então. - Interrompeu Clara com autoridade – E quanto ao atraso e ao fazer perder o tempo da professora fique descansada. Eu mesma vou fazer com que ele recupere o tempo perdido. Filho meu não é menos inteligente que os outros nem menos capaz. Garanto-lhe que no final do ano Lucas vai ser tão bom como todos os outros da turma
 
                Filho meu? Ela disse filho meu? Só soube da minha existência ontem e já me adoptou como seu filho. Aquela frase caiu nos meus ouvidos como uma bomba. Mas não fiquei chateado. Pelo contrário. Lembrei-me de como a minha avó me tinha ensinado como Deus fazia as coisas. Deus tinha levado a minha mãe e o meu irmãozinho para o céu e, logo no dia seguinte, me deu uma nova mãe e um novo irmão. Estava decidido. Aceitaria Clara como minha mãe e João como meu irmão. Decidi ali também que iria recompensar Clara por todo o carinho e amor que me dava.
                A directora pensou na proposta de Clara, minha mãe, por alguns instantes e disse:
 
                - Clara, a sua determinação me dá confiança e o Lucas não pode ficar sem escola. É de Lei e é assim que eu penso também. Está decidido. O Lucas vai para a quarta série. Tem a certidão de nascimento dele?
 
                Minha mãe tirou da sua bolsa os mesmos papeis que tinham vindo na minha trouxa e entregou-os à directora. A directora preencheu outros papéis e passou um pequeno bilhete para a minha mãe.
 
                - É para pedir o uniforme dele ali na secretaria. – Disse. – Amanhã à tarde o Lucas já pode vir à escola.
 
                Minha mãe agradeceu, se levantou e se despediu da directora. Saímos da sala e dirigimo-nos à secretaria onde comprámos o meu uniforme. Pouco tempo depois já estávamos em casa.
apesar de ainda não ser destaque do Sapo... sinto-me: optimista
publicado por Farroscal II às 12:33
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