Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

O Velho Zacarias - Capítulo II - Uma Nova família - Parte 3

 

As últimas palavras de Clara me fizeram parar e lembrar a minha avó e tudo o que ela me ensinava. Clara era uma boa mulher, de coração humilde e logo nutri por ela um forte amor e consideração.
Ao chegar à cozinha me deparei com a mesa impecavelmente posta. Cada lugar preparado e, no centro da mesa, uma jarra com flores. Quatro lugares na mesa. Eram quatro pessoas para almoçar. Clara, meu pai, João e eu. Eu fazia parte da mesa deles. Eu tinha uma nova família que me tinha aceite sem fazer qualquer pergunta.
O meu pai e Clara chegaram logo atrás e ocuparam os seus lugares na mesa.
 
- O seu lugar é ali Lucas – Disse Clara apontando para um dos lugares da mesa. – Fiz um almoço especial para o recebermos. Fiz Lasanha de frango. Gosta de Lasanha?
 
Encolhi os ombros. Nunca tinha comido, mas se era de frango ia gostar com certeza.
 
- Eu adoro lasanha, Lucas – Disse João entusiasmado – Lasanha é a melhor coisa do mundo. De certeza que vai adorar.
 
Todos se sentaram à mesa menos Clara que ficou de pé a servir os pratos.
Depois de todos servidos Clara se sentou também e o pai pediu a João para dar Graças.
 
- Obrigado senhor pelo nosso alimento e leva alimento a todas as crianças que não têm o que comer, áme… ah! É verdade. Obrigado por mandar o irmãozinho que tanto Lhe pedi. Ámen.
 
Com todos os acontecimentos que tinha tido nas últimas 24 horas, não percebi que ainda não tinha comido nada desde a manhã do dia anterior, e só ao ver o prato de comida à minha frente é que reparei que estava cheio de fome. Comi com uma sofreguidão enorme, e nem tive tempo de pensar se gostava ou não de lasanha. Devorei o prato, e Clara, percebendo o meu estado, se levantou e me serviu um segundo prato de comida que comi com a mesma vontade.
Ao acabarmos de comer o meu pai se levantou e disse:
 
- Bem, está tudo muito bom, mas eu tenho que ir trabalhar. E você, senhor João, vá tomar banho, se vestir e ir para a escola que já está atrasado. Quanto ao Senhor Lucas vai descansar e amanhã de manhã a Clara vai com você à escola para fazer a sua matrícula
 
Seguiu para o quintal, tornou a montar na bicicleta e foi trabalhar. Marcos era pedreiro.
Lucas tomou o banho, enquanto Clara arrumava a cozinha, e também seguiu o seu caminho em direcção à escola.
Eu fiquei sentado à mesa a observar Clara que lavava a louça na pia da cozinha.
 
- Sabe Lucas – Disse ela olhando para mim por cima do ombro – Ficámos todos muito contentes de vir morar connosco. Eu e o seu pai estávamos a pensar ter outro filho, e o João estava doido para ter um irmãozinho. E olha o que Deus nos deu: Um menino lindo.
 
Eu fiquei a olhar para ela e a escutar tudo o que dizia e pensava que, apesar de tudo o que tinha acontecido na minha vida, o meu coração dizia que estava em casa. Uma nova casa, uma nova família.
Clara acabou de arrumar a cozinha, pegou em minha mão e disse:
 
- Agora vamos arrumar as suas coisas e mostrar onde vai ser o seu quarto e a sua cama.
 
Seguimos para a sala onde Clara agarrou na minha trouxa e entrámos no quarto.
O quarto não era grande, mas também não era demasiado pequeno. Na parede em frente à porta tinha uma janela meio tapada por um guarda-roupa e junto às paredes laterais uma cama de cada lado. Parecia que aquele quarto sempre tinha estado preparado para acolher duas pesoas.
 
- Sabe – Disse Clara enquanto desamarrava a trouxa em cima de uma das camas – Tivemos muita sorte em ter conseguido esta cama emprestada em tão pouco tempo. Vieram trazê-la hoje de manhã. No próximo fim-de-semana vamos a um topa tudo e vamos comprar a sua cama definitiva.
 
Depois de abrir a trouxa com a minha roupa, começou a dividi-la e a dobrá-la. Calças e calções para um lado, camisetas para o outro. Encontrou também uns papeis dobrados que, após desdobrar e ver o que era, tornou a dobrá-los colocando-os a um canto da cama. O resto da tarefa não demorou muito, pois eu tinha muito pouca roupa.
 
- Bem – Tornou a dizer – Espaço no armário não vai faltar. Você tem tão pouca roupa. Mas, logo logo vamos resolver isso. Ah! E também vamos ter que arranjar um par de sapatos. Só tem esse par de chinelos velhos para andar e não quero que vá à escola de chinelos. Valha-me Deus! Olha o estado dessa roupa. Não, não vou arrumar nada. Vai tudo para lavar.
 
Tornou a colocar tudo na trouxa e foi para o quintal da casa, parando junto de uma pia. Abriu a torneira da água e deitou dentro da pia sabão em pó.
Foi uma sensação estranha a que senti. Ao vê-la mexer nas minhas coisas com tanto carinho senti uma espécie de friozinho na barriga. Não sabia o que era aquele sentimento, mas era agradável. Era bom ver cuidar das minhas coisas.
Quando começou a esfregar a primeira peça de roupa parou. Reparou que eu estava ali de pé, parado, a olhar para ela.
 
- Lucas, vá descansar. Deve estar exausto. A sua cama já está lá no quarto. Pode dormir um pouco se quiser.
 
Estava cansado sim. Exausto na verdade. Mas não queria dormir. Não iria conseguir dormir. Assim, em vez de tomar o caminho do quarto, dirigi-me à parte da frente da casa e sentei-me debaixo de uma mangueira a observar o velho que ainda estava sentado na porta do boteco.
A primeira coisa que reparei foram as enormes cicatrizes que o velho tinha nos pulsos e nos tornozelos. Eram enormes. “Que grandes feridas ele deve ter tido”, pensei para comigo. “Onde será que ele as arranjou? Devem ter doido muito”.

               E, ali fiquei a imaginar como o velho se teria magoado, me abstraindo de todos os acontecimentos que tinham decorrido na minha vida.

Não me lembro de ter adormecido, e só sei que acordei a gritar. Sei que tive um pesadelo embora não me lembre qual. Quando acordei já era de noite e estava na minha cama, deitado no colo de Clara, com o meu irmão sentado aos pés da minha cama. Clara me abraçava com força dizendo:
 
- Pronto Lucas, já passou. Foi um pesadelo, mas já passou. Descansa meu amor, não vai acontecer mais nada de mal com você. Já passou tudo.
 
E começou a alisar a minha cabeça com uma das suas mãos.
João, sentado aos pés da minha cama com um ar assustado, me olhou e disse:
 
- Fica descansado mano. Eu vou ficar aqui a tomar conta de você. Se aparecer aqui mais algum monstro para lhe assustar eu vou dar uma porrada nele que ele vai ver.
 
E comecei a chorar. Chorei muito nos braços de Clara, até que o cansaço me venceu de novo e adormeci.
publicado por Farroscal II às 14:07
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