Quarta-feira, 25 de Março de 2009

O velho zacarias - capítulo I - Sózinho - Parte 2

 

Lembro-me de espreitar para dentro do quarto e ver a saia da minha mãe encharcada em sangue. Fiquei paralisado com medo. Minha avó sacudiu-me pelos ombros acordando-me do meu transe:
 
- Depressa, vai. Seu irmãozinho está chegando.
 
Saí a correr. Corri o mais depressa que pude e depressa cheguei a casa da vizinha que distava de nossa casa uns dez minutos a pé.
Ainda não tinha chegado à casa e já gritava:
 
- Dona Maria, Dona Maria, depressa. Meu irmãozinho está chegando.
 
Ela apareceu à porta de casa assustada.
 
- Que foi Luquinhas? Que sufoco é esse? Parece que você viu o capeta.
- Depressa dona Maria. Meu irmãozinho está chegando e minha avó mandou chamar.
- Mas, já? Mas ainda não está no tempo!
- Isso eu não sei. Meu pai chegou em casa com ela no colo e a saia estava suja de sangue.
- Nos valha Nossa Senhora de Aparecida e Nosso Senhor Jesus Cristo! Depressa, aparelha a carroça enquanto vou buscar as minhas coisas.
 
Ela entrou em casa e eu fui aparelhar o jegue que pastava junto à casa, na velha carroça, que devia ser tão velha quanto a própria dona Maria.
Dona Maria era quem fazia todos os partos na região. Acompanhamento médico e hospitais ficavam demasiado longe da roça. Dizia minha avó que dona Maria tinha trazido ao mundo quase todos os que viviam naquela região.
Ainda não tinha acabado de aparelhar o jegue à carroça e dona Maria já saía, apressada, da porta de casa, trazendo com ela uma velha sacola:
 
- Depressa Lucas, não há tempo a perder.
 
Acabei o serviço e ajudei dona Maria a subir para a carroça. Depressa chegámos a minha casa e nem foi preciso ajudá-la a descer, pois quando rodeei a carroça para a ajudar já ela tinha saltado e corria para a porta de casa.
 
- Depressa Isaías, vá ferver água – gritou D. Maria para o meu pai.
 
Meu pai apressou-se a colocar uma panela com água no fogo. Dona Maria e minha avó entraram no quarto fechando a porta atrás de si.
Depois da água ferver meu pai levou a panela para o quarto e saiu com um ar sombrio que espelhava raiva e medo, dirigindo-se para a cozinha de onde voltou com a garrafa de cachaça e um copo. Tive medo. Não percebia o que estava a acontecer mas apoderou-se de mim um terror como nunca tinha sentido na vida.
Meu pai sentou-se na cadeira da sala e eu, encostando-me a uma das paredes, deslizei sobre ela até ficar sentado no chão.
As horas passaram e com elas veio a noite escurecendo toda a casa e deixando o ambiente ainda mais sombrio do que já estava.
Já era noite fechada quando minha avó saiu pela porta do quarto. Vinha suada, curvada, cansada mas, principalmente, e lembro-me da cara dela como se fosse hoje, vinha profundamente triste.
Olhou para mim e logo as lágrimas começaram a escorrer-lhe pela face. Dirigiu-se à pequena imagem de Nossa Senhora de Aparecida que estava numa pequena tábua presa a uma das paredes da sala e agarrou o terço que estava junto da imagem. Sentou-se no banco de correr encostado à parede e, olhando para o meu pai, disse:
 
- Só nos resta rezar e pedir a Nossa Senhora que interceda por nós junto de Nosso Senhor.
 
                Meu pai, sem tirar os olhos do copo que tinha na mão respondeu:
 
- Reze a senhora que a mim Deus já esqueceu faz é tempo.
 
                Esperei pela habitual repreensão da minha avó, mas ela não veio. Minha avó ficou calada. Benzeu-se, colocou o dedo sobre a primeira conta do terço e começou a rezar o Pai Nosso.
                Algum tempo depois saiu dona Maria. Vinha de cabeça baixa, de mãos penduradas. Trazia a camisa e a saia sujas de sangue:
 
- Não havia nada a fazer, Deus Nosso Senhor os chamou para o Seu Reino. Louvado Seja o Seu nome.
 
Meu pai levantou-se, olhou para dona Maria e, com os olhos cheios de raiva, respondeu-lhe:
 
- Louvado seja? Como se pode louvar um deus que só trás mágoa e tristeza? Maldito seja, isso sim. – E saiu porta fora.
 
                Dona Maria voltou para dentro do quarto, fechando a porta atrás de si.
                Levantei-me de onde estava e aproximei-me de minha avó:
 
- Avó, meu irmãozinho já chegou? – Perguntei na minha inocência sem querer ouvir a resposta que já adivinhava.
 
                Minha avó olhou para mim com os seus olhos a brilhar das lágrimas que escorriam pelo seu rosto e, limpando a cara e o nariz com a manga da camisa, disse-me:
 
- Chegou Luquinhas, mas Deus Nosso Senhor chamou-o para ser um anjo… A ele e à tua mãe.
- Mas vó, se minha mãe é um anjo vai ter que ir para o céu e eu vou ficar sozinho – comecei a soluçar – por favor, pede a Deus para não levar a minha mãe.
- Luquinhas, Deus na sua infinita bondade sabe o que faz e, se Ele a levou, saberá porquê, e um dia nós também vamos perceber porque Ele os levou.
 
Minha avó apertou o terço com as duas mãos e, chorando compulsivamente, continuou a rezar o terço.
publicado por Farroscal II às 19:49
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