Quarta-feira, 25 de Março de 2009

O Velho Zacarias - Capítulo I - Sózinho - Parte 1

 
Naquela noite tive medo. Pela primeira vez na minha vida estava sozinho, sem ela do meu lado para me proteger.
Lembro-me perfeitamente de tudo como se fosse hoje. A sala estava escura como de costume, apenas com uma candeia de óleo acesa no meio da mesa.
Na única cadeira da sala meu pai debruçava-se com o peito na mesa e, com os braços esticados, segurava na garrafa de cachaça com uma mão e o copo com a outra. Camisa aberta no peito, por fora das calças de fazenda surradas e gastas, de não terem um dia de folga. As botas de couro empoeiradas e com as pontas descosidas.
Era um homem dos seus cinquenta anos, rude, analfabeto, que trabalhava de sol a sol na roça, cuidando das suas canas, que amava mais que a mim. Plantava, colhia e as moía tirando a garapa de onde fazia a rapadura e a cachaça que vendia no mercado de Jequitaí todas as semanas. Orgulhava-se da sua cachaça, que dizia ser a melhor da região, quando estava meio sóbrio, e a melhor do mundo quando estava bêbado, que era quase sempre.
Magro e seco de tanto trabalho e pinga, pele escura e quebrada do sol, olhos fundos e perdidos, de quem não tinha outro objetivo se não viver o dia de amanhã para colher mais canas.
Falava com orgulho do seu filho, fruto de um primeiro casamento e cujo a mulher tinha morrido ao dar à luz um filho que também morreria durante o parto. Falava de como ele seria um grande homem, talvez um advogado, que teria uma família feliz e próspera e se casaria com uma moça digna e não teria que se casar com uma mulher perdida para ter em casa alguém para cozinhar para ele. Eu não entendia porque dizia aquelas coisas, principalmente porque eram ditas à minha mãe.
Não era um homem mau, apesar de algumas surras que me deu, embora também nunca lhe tenha visto um carinho para mim ou para a minha mãe.
Meu irmão, Salomão, tinha partido há dois anos para Uberlândia, para casa de uns parentes que ali viviam. Tinha 15 anos e meu pai mandou-o porque queria que ele estudasse para não ser um analfabeto como ele mesmo era. Meu pai dera-lhe o nome de Salomão por se achar abençoado pela sua família e, como tal, dera o nome com esperança que Deus abençoasse o seu filho com uma inteligência divina, para que não tivesse que viver como ele. Meu pai, ouvi da minha avó, fora um homem de fé até à morte da sua primeira mulher.
No dia da partida do meu irmão, meu pai retirou uma caixa de dentro do seu armário e agarrou um maço de notas que lhe colocou na mão, advertindo-o:
 
- Quando chegares a Uberlândia procura pelo Chico Castanha. È nosso primo e não te vai negar um teto.
 
Nunca tinha visto tanto dinheiro.
Meu irmão partiu na carroça do nosso vizinho até à cidade, onde apanharia um ônibus. Nunca mais o vi ou tive notícias dele.
Minha avó, sentada no banco de correr encostado à parede, segurava o terço e, entre as ave-marias, soluçava e embebia as próprias lágrimas.
Era uma mulher devota, de um coração enorme e sempre me tratara com muito amor e carinho. Ficava com ela em casa enquanto minha mãe e meu pai cuidavam dos afazeres da roça. Falava-me do amor de Nosso Senhor, de como Ele, lá doa alto, olhava e cuidava de nós. Rezávamos o terço todos os dias enquanto ela preparava o almoço. No fim do terço rezávamos a consagração a Nossa Senhora. Minha avó falava que deveríamos aprender com Maria a ser humildes de coração e a aceitar, sem reclamar, a vida que Deus nos tinha dado, pedindo a ela que nos ajudasse a suportar a dureza da vida.
Eu não entendia porquê ela falava em dureza da vida. Eu era feliz. Brincava, corria pelo mato como um animal livre, caçava tatus, enfim, divertia-me no auge da minha infância.
Tratava a minha mãe como se fosse uma filha e repreendia o meu pai sempre que, bêbado, chamava a minha mãe de perdida:
 
- Não tem o direito de a tratar dessa forma. É a mulher que Deus te deu para te tirar da solidão. È uma mulher boa que te ama e que se dedica a você sem nunca reclamar da vida que Deus lhe deu. Deus ainda te vai castigar pela sua ingratidão.
 
E assim foi. No oitavo mês da sua gravidez, minha mãe, a quem eu nunca vira tirar um dia para descansar, apesar da enorme barriga que carregava, caiu curvada às dores enquanto cortava as canas na companhia de meu pai.
Meu pai entrou em casa quase arrombando a porta, trazendo minha mãe no colo. Eu estava com a minha avó na cozinha a preparar o almoço e a rezar o terço, como era hábito. Minha avó largou tudo e correu para junto de meu pai para o ajudar a deitar minha mãe na cama.
De dentro do quarto veio o grito de minha avó:
 
- Lucas, depressa, vai chamar a vizinha Maria e diz-lhe que chegou a hora.

 

publicado por Farroscal II às 12:50
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