Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

O Casamento "Divertido"

Nas minhas constantes viagens pela blogosfera aí do burgo, deparei-me, esta semana, com um número elevadíssimo de comentários a respeito do casamento gay e do programa de televisão que abordou a mesma temática.

 
Independentemente da posição que cada um tomava (para que saibam eu sou contra), o que me chamou mais a atenção foi a ignorância que os ditos bloguistas tinham sobre a matéria e a violência com que atacavam os interlocutores deste ou daquele lado.
 
Usavam frases feitas, justificavam-se com questões que nem fazem parte do tema, o uso de um “politicamente correto” sem qualquer fundo de lógica.
 
Quando escolhi o nome do blog foi exatamente a pensar neste tipo de situações. Pessoas que deixaram de ter sentido crítico, habituadas a correr para onde corre o rebanho sem parar um minuto para pensar naquilo que dizem ou fazem.
 
Erros todos cometemos, enganados todos somos, ou fomos. Mas o perigo da ignorância começa mesmo aqui. Quando com palas nos olhos não somos capazes de vislumbrar a mais pura inteligência. E, chama-se a isso... Dar pérolas a porcos.
 
Num dos muitos textos que li, vi uma pessoa que se atirava com unhas e dentes ao Dom José Policarpo porque ele afirmou que a homossexualidade “não é normal”. A raiva com que descarregou em cima do homem foi tal que, para justificar a sua indignação perguntava se ele achava a pedófilia normal e por aí a fora.
 
É aqui que eu paro para nos fazer pensar. 1º O que é que ele quis dizer com aquela afirmação? E 2º: o que é que tudo o resto (os pecados de alguns padres) tinham a ver com a história?
 
Claro que a homossexualidade não é normal. Normal é macho com fêmea. Isto é o normal e o natural. O que não quer dizer que a homossexualidade não exista, seja lá porque razão for (seja por questões psicológicas ou hormonais ou outra que eu desconheça), o que não quer dizer que nós não possamos conviver com ela, que as pessoas que são homossexuais não sejam gente boa e por aí vamos.
 
Isto tudo para dizer que devemos ter mais atenção ao que ouvimos. Saibamos parar para discernir sobre as coisas e, depois disso, tomarmos a nossa posição de uma maneira livre e imparcial. Cuidado com os rebanhos. È que, como disse alguém há dois mil anos atrás: “cuidado com os lobos disfarçados de cordeiros. Não os sigais.”
 
Deixo aqui o texto que li num blog (movimento perpétuo) e que considero um hino à inteligência e ao sentido crítico (independentemente de se concordar ou não). Um exemplo a seguir:
 
Matrimónio: do latim mater (mãe) ou matrimonium (mulher casada)
 
Deixo aqui algumas impressões pessoais acerca do tema, depois de ter visto en passant o programa da RTP1 Prós & Contras:
 
1ª) como liberal devo reconhecer a igualdade de todos perante a lei (no entanto, a igualdade de direitos só pode ser medida quando estão em causa coisas comparáveis o que, a meu ver, não é o caso);
 
2ª) considero redutor caracterizar uma pessoa pela sua sexualidade (nunca gostei da expressão "pessoas homossexuais", embora a utilize para facilidade de exposição. Esta caracterização de um ser humano dá a entender que, além do acto sexual e afectivo propriamente ditos, há também uma forma homossexual de comer, de rir, de correr, de trabalhar, de pensar... Por isso, prefiro olhar para as pessoas pelo seu carácter e não pelo que fazem dentro do quarto. Prefiro pensar, simplesmente, que existem pessoas que têm actos homossexuais, como têm actos de bondade, actos de estupidez, actos de profissionalismo, actos de sensatez, actos de cobardia,...
 
3ª) a posição da Igreja não deve ser encarada de forma simplista, como retrógrada. A Igreja Católica é a mais igualitária de todas as igrejas, pois a seus olhos todos (sem excepção) são filhos de Deus. O facto de acreditar que o casamento é a união entre um homem e uma mulher, não a torna menos digna de respeito e consideração (curioso é que alguns defensores do casamento homossexual sejam tão violentos na reacção à posição da Igreja Católica e não digam um pio sobre o tratamento dado aos homossexuais por outras igrejas. Ou só os homossexuais ocidentais é que têm direitos?).
 
4ª) como conservador acredito que o casamento é uma instituição que visa estabelecer uma união entre um homem e uma mulher, logo a sua descendência e proteger a família;
 
5ª) os impedimentos e impossibilidades biológicas não podem ser evitados por decreto. O que quero dizer é que, da mesma forma que um homem não pode ser mãe e uma mulher não pode ser pai, também um casal homossexual não pode ter descendência e, por isso, não pode ter um "casamento";
 
6ª) se julgamos a lei actual injusta e discriminatória, por não permitir casamentos entre pessoas do mesmo sexo, teremos que ir mais longe: também não permite casamentos entre mais do que duas pessoas, ou entre irmãos, ou entre humanos e animais. Em última instância, qual é a diferença? Se é uma questão de discriminação, então todas as uniões devem ser admitidas. Se é uma questão moral, então o casamento entre pessoas do mesmo sexo também deve ser;
 
7ª) a meu ver, o chamado casamento civil é uma apropriação por parte do Estado de um acto eminentemente religioso e pessoal. O Estado devia apenas reconhecer uniões civis (uniões contratuais entre pessoas);
 
8ª) se existem outras formas legais para se corrigirem certos defeitos das uniões entre pessoas do mesmo sexo (aí sim, existem muitos motivos para se falar em discriminação) porque razão se insiste no casamento?
 
9ª) constato que o descontrolo dos defensores do casamento entre pessoas do mesmo sexo ocorre, sobretudo, em heterossexuais;
 
10ª) já que estamos numa de queer world, Fernanda Câncio tem um péssimo gosto para se vestir e um penteado de meter medo, além de ser arrogante (agora percebo muita coisa...) e pretensiosa (aquele arzinho de superioridade moral até arrepia os pêlos da nuca!);
 
11ª) a jurista elegante da mesa descontrola-se com facilidade e fez uma intervenção final um pouco desproprositada (infelizmente, minha cara, há muitas razões para o suicídio e nenhuma pode ser evitada por decreto);
 
12ª) há uma certa incomodidade, por parte dos homossexuais, em discutir o tema da adopção. Este é um assunto intrinsecamente relacionado como o casamento.
 
Resumindo: o sexo pratica-se no quarto e não se discute na sala. A vida sexual de cada um interess apenas ao próprio e ao parceiro(a) (quando existe; é que há vidas muito tristes...) e não deve, de forma nenhuma, ser o traço caracterizador da individualidade de cada pessoa. Direitos iguais implicam situações iguais: a união entre um homem e uma mulher é necessariamente diferente da união entre duas pessoas do mesmo sexo, por isso devem ter designações diferentes. O Estado devia apenas regular uniões civis entre pessoas, contratos estabelecidos perante a lei e não regular os contratantes (assim se evitava a discriminação e a desigualdade).     
In  HTTP://movimentoperpetuo.blogs.sapo.pt
apesar de ainda não ser destaque do Sapo... sinto-me: Blogadíssimo
publicado por Farroscal II às 19:30
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4 polimentos:
De Gajo a 20 de Fevereiro de 2009 às 21:35
Polémico. Vamos a isso então!!
Esta discussão veio (novamente) à praça pública porque o nosso governo está interessado em que as pessoas se distraem com conversas da treta em vez de se absorverem com tudo o que vai mal (e vai muita coisa) neste país.
Estou de acordo com algumas das coisas que dizes. No entanto, discordo em alguns pormenores.
Assumindo que 2 pessoas, sejam elas do mesmo sexo ou não, partilham uma vida em comum debaixo de um mesmo tecto, ligadas por laços afectivos, então estas pessoas deviam ter os mesmos direitos da chamada "união de facto". Porque, p.ex., se uma dessas pessoas morre, o que é que a outra tem direito? A nada...
Agora, chamemos união de facto, chamemos casamento, para mim é igual ao litro, estou-me nas tintas para a designação. Acho, isso sim, é que tudo isto é um "fait divers" quando há tantas e tantos problemas bem mais graves para resolver.
Abraço
P.S. A bojeca estava uma maravilha ;)
De Farroscal II a 21 de Fevereiro de 2009 às 13:43
Bem revindo Gajo.
O meu post não pretende entrar na polémica do casamento gay. Aquilo a que tento chamar a atenção é à forma como pensamos ou deixamos que outros pensem por nós. O texto que coloquei foi só mesmo para exemplificar o modo como se deve pensar com a própria cabeça. E vejo, pelo que me escreves, que isso já fazes.
Abraço e volta sempre
De inframodal a 22 de Fevereiro de 2009 às 00:14
Deixe-me só dizer-lhe, caro FarroscalII , que me sinto ofuscado pela sua inteligência!
É engraçado você falar em pensar pela própria cabeça, quando os seus argumentos, que exprimem, presumo, ideias próprias, mais não são que um desfilar de ideossincrasias velhas e gastas que, obviamente, enformam o seu pensar e agir ideológico.
Mas se se considera um pensador original e assim é mais feliz, quem sou eu para lhe minar as ilusões.
Boa sorte!
De Farroscal II a 22 de Fevereiro de 2009 às 19:02
Bem vindo ao meu (nosso) xiqueiro.
Agradeço a forma irónica e superior com que me "acarinha". De uma forma tão elegante e educada não poderia, de forma alguma, deixar de a publicar. Uma autêntica pèrola.
Longe de mim pensar que sou um pensador original - quem sou eu! - Essa originalidade está apenas ao alcance de muito poucos - Talvez tenha tido a sorte de encontrar um deles.
É claro que devo estar influenciado por alguma forma de pensamento. Vai-se lá saber é qual. ideossincrasias velhas? Talvez. Gastas? Eu não acho.
Volte mais vezes! o Xiqueiro também é seu. Quem sabe não podemos aprender algo um com o outro?
Cumprimentos

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