Sexta-feira, 27 de Março de 2009

O Velho Zacarias - Capítulo II - Uma nova Família - Parte 1

                    A viagem de Jequitaí a Montes Claros deverá ter durado sensivelmente duas horas e, qual não foi o meu espanto, ao entrar na cidade e ver tantas casas, tantas lojas, tantas pessoas a andar de um lado para o outro, como se fossem formigas. Tantos carros, tantas motos e caminhões. Pessoas de cara fechada, pessoas a rir, pessoas a cumprimentarem-se e outras a brigarem. Era algo que nunca tinha presenciado e, lembro-me, achei graça a todo aquele reboliço.

                Levou pouco tempo até chegarmos à Rodoviária. E achei interessante aquele enorme edifício com tantos ônibus parados. Pessoas a embarcarem e a desembarcarem num corrupio infernal.
                Descemos do ônibus e um homem dirigiu-se em nossa direcção. Era um homem negro, bem constituído fisicamente, vestido de forma aprumada.
 
- Isaías? – Perguntou.
- Sim. E este é o seu filho Lucas.
- Olá Lucas. Deve estar a achar isto tudo muito estranho, mas é verdade, eu sou o seu verdadeiro pai.
 
Olhei aquele homem e fiquei calado.
 
- Não ligue ao fedelho. É ignorante como a mãe. – Respondeu Isaías.
- Não lhe admito que fale assim da… - Olhou para mim e calou-se.
 
Isaías agarrou na trouxa de roupa e atirou-a aos pés de Lucas.
 
- Pronto. Está entregue – Disse.
 
Virou as costas, subiu as escadas que levavam à saída da rodoviária. Nunca mais o vi.
O homem, meu pai, pegou na trouxa com uma mão e estendeu-me a outra. Dei-lhe a mão e ele me encaminhou pelo mesmo caminho que Isaías tinha levado. Depois das escadas atravessámos uma enorme sala com muitas cadeiras e pequenas casinhas, que mais tarde descobri que eram as bilheterias.
Ao sair da rodoviária havia um pequeno quiosque onde se vendiam jornais, revistas e outros artigos. O meu pai dirigiu-se ao homem do quiosque:
 
- Jean, obrigado por guardar a minha bicicleta.
- Que é isso Marcos! Sabe que pode contar comigo. Mas quem é essa criança que veio buscar?
- É meu flho.
- Filho? Pensei que só tinha o João.
- É uma longa história. Depois lhe conto.
 
                Marcos, o meu pai se chamava Marcos. Foi assim que descobri o nome do meu pai e não pude, logo ali, deixar de reparar na coincidência, ou não, que tal como eu, o meu pai tinha o nome de um dos evangelistas. E não só meu pai. Pelos vistos tinha um irmão. O João.
                Marcos, o meu pai, amarrou a trouxa na parte de trás da bicicleta, subiu para ela, me pegou e me sentou numa pequena cadeira de ferro presa ao volante da bicicleta. Os meus quadris mal couberam na cadeira, mas, com jeito, lá me acomodei e seguimos a nossa viagem. A viagem para a minha nova casa.
Ia começar a imaginar como seria a nossa casa, mas o meu pai não deixou:
 
                - Sabe – começou – conheci a sua mãe ainda muito jovem. Gostava muito dela e ela de mim, mas éramos demasiado novos, e quando descobrimos que ela estava grávida eu tive medo e fugi. Fui um covarde. Sabe o que é um covarde?
               
                Não respondi.
 
                - Bem – continuou – abandonei a sua mãe, fugi aqui para a cidade e ela casou com o Isaías para não passar a vergonha de ser mãe solteira. Fiquei muito triste com a sua morte. Guardo bonitas lembranças dela. Espero que ela me tenha perdoado. Não fui o homem que deveria ter sido. Mas, espero poder compensar com você o mal que lhe causei.
 
                Enquanto ele falava fui reparando nas casas, nas estradas, nas pessoas, e reparei que, ao longo do caminho, as casas iam mudando de aparência e já não eram tantas. O asfalto acabou e logo entramos numa estrada de terra. Parecia que estava a voltar para a roça.
                Ao passarmos por um edifício grande dentro um terreno completamente murado ele disse:
 
                - É ali que vai ser a sua nova escola. Você andava na escola lá na roça não andava?
 
                Continuei calado.
 
                - Já vi que você não é de muitas conversas. Mas é normal. É tudo novo para você e deve ter sido um choque muito grande. Descobrir um pai novo, a mort… - Fez uma pausa. – Sabe, casei. Tenho uma mulher maravilhosa que vai adorar lhe conhecer. Ah! E também tem um irmão. O João. Ele tem sete anos e também estuda naquela escola. Vão ser colegas.
 
                Colegas. Eu ia para escola. Só ali me dei conta que realmente nunca tinha ido á escola. Não sabia ler nem escrever, nem sabia fazer contas. Gostei da idéia.
                Reparei que o meu pai era um homem bem diferente do Isaías. Era educado, falava com calma e ternura, e até parecia que eu para ele era importante. Desde aquela pequena viagem de bicicleta que adquiri um profundo carinho por aquele homem. O Marcos, meu pai.
 
- Chegámos. Este é o bairro onde você vai morar. O Bairro S. Jorge. A nossa casa é ali, ao fundo desta rua.
publicado por Farroscal II às 14:00
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