Quinta-feira, 26 de Março de 2009

o Velho Zacarias - Capítulo I - Sózinho - Parte 4

 

                - Pai…
                - Eu não sou seu pai. A vagabunda de sua mãe já lhe trazia no bucho quando casei com ela. Agora que morreu já não tenho obrigação nenhuma de lhe sustentar. Vai para junto da besta que lhe fez. Ele que lhe crie e ature.
 
                Ficou um silêncio dentro do caminhão e, no meio de toda a confusão de pensamentos que ia na minha cabeça, aquela voz falava mais alto:
 
                - Aceita tudo com amor, como a sua avó lhe ensinou.
 
Pouco tempo depois chegámos a Jequitaí e parámos na pequena rodoviária. Meu pai comprou duas passagens e ficámos sentados à espera do ônibus que nos levaria ao destino que eu ainda desconhecia.
               
                - Para onde vamos? – Perguntei.
 
                Reparei que não chamei aquele homem de pai. Por qualquer razão, que ainda hoje não sei explicar, Isaías tinha deixado, definitivamente, de ser o homem que eu sempre chamara de pai. Aquele homem passara a ser um estranho. Todo o sentimento que eu tinha por ele desaparecera sem eu me ter apercebido.
 
                - Já lhe disse. Para casa do seu pai.
                - Mas onde está o meu pai?
                - Que moleque chato! Em Montes Claros. Agora cale essa boca antes que perca a paciência e lhe dê uma surra.
                - Se não é meu pai não pode me bater.
 
                Não sei de onde saiu aquela frase. Mas saiu. E saiu com desprezo, apanhando Isaías desprevenido para tamanha ousadia.
                Noutras circunstâncias teria levado uma surra de sinto, e foi isso que esperei que acontecesse. Mas não. Apenas uma resposta seca:
               
- Ingrato como a mãe. Mas acabou. Seu pai que lhe castigue se quiser, que eu já não estou para me chatear por causa de um moleque.
 
                Pouco tempo depois chegou o ônibus que nos levaria ao meu novo destino e, sentado na poltrona, pensei na minha mãe e no meu irmãozinho que não voltaria a ver. E, acima de tudo, pensei na minha querida avó de quem nem me foi dada a oportunidade de me despedir.
                Senti-me perdido, sozinho, com medo do que me iria acontecer, mas, novamente, lembrei-me de todas as palavras daquela mulher no meu sonho:
 
- Lucas, não tenha medo. Muitas coisas vão mudar e você vai ter que ter confiança. Lembre-se que nunca estará sozinho e que nada de mal lhe irá acontecer. Aceite tudo com amor, como sua avó lhe ensinou.
 
                E eu, uma criança de apenas dez anos, tomei a decisão de que dali para a frente iria pautar toda a minha vida fazendo exactamente como a mulher me tinha dito: Ter confiança e aceitar tudo com amor.
                Recostei-me na poltrona, observei a paisagem e rezei o terço, como a minha avó também me tinha ensinado, pedindo a Nossa Senhora que rogasse a Deus para que o meu pai fosse um homem de bem e bom para mim.
publicado por Farroscal II às 18:25
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